quinta-feira, 15 de novembro de 2007

CONHECENDO OS HERÓIS DE PERTO



Além dos tabus relacionados é interessante darmos um mergulho nessa nossa história, a do Brasil. Vitimada por falta de verbas para pesquisas, arquivos devastados, e depois pasteurizada em dois períodos recentes (primeiramente, por Getulio Vargas, seu DIP e a reforma curricular e depois com a Ditadura Militar, criadora da cadeira de Educação, Moral e Cívica - mais tarde emblematicamente transformada em estudos da Organização Social e Política Brasileira e que ganhava estofo nas faculdades como Estudo dos Problemas Brasileiros) com métodos de mitificação e nacionalismo verdadeiramente deploráveis. Se por um lado mitificamos posturas heróicas que se transformam em ícones para idólatras acabamos por evitar tocar em tabus da história, e como Maria Luiza Tucci Carneiro escreve "deixar cair no esquecimento ou postergar para o futuro são também práticas conhecidas dos brasileiros anestesiados pelas versões oficiais da história". Felizmente isso está mudando e as prateleiras das livrarias se enchem de livros que nos ajudam a repensar nosso passado.



Nossa história começa confusa com a presença de Vicente Pinzón. A cidade de Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, e a cidade de Fortaleza, no Ceará, disputam o "privilégio" de ter sido o primeiro lugar onde desembarcou um europeu, e portanto, um lugar de descobrimento. Seriam ali os lugares onde o Brasil teria sido descoberto. Mais de dois meses antes de Pedro Álvares Cabral, o navegador espanhol Vicente Pinzón teria aportado suas caravelas em uma dessas cidades. E para complicar ainda um pouco mais no livro A construção do Brasil (1998, Edições Cosmos), o historiador português Jorge Couto relata que o navegador português Duarte Pacheco aqui esteve entre novembro e dezembro de 1498, portanto, mais de dois anos antes de Cabral, mais de um ano antes de Vicente Pinzón, fortalecendo assim a idéia, de que a viagem de Cabral foi intencional e a descoberta não um acaso, e sim uma premeditação. Outra confusão que surgiu na época das comemorações dos 500 anos foi a da primeira cidade brasileira. Neste suplemento publicamos a história da cidade de São Vicente que "da capitania hereditária de São Vicente, hoje, no estado de São Paulo, é uma das cidades que reivindicam para si o título de primeira cidade do Brasil, contrariando os humores de Porto Seguro, Bahia, por exemplo. Picuinhas históricas à parte, esta cidade que tem como dístico o de Céllula Mater da Nacionalidade e, segundo o historiador Francisco Martins dos Santos, já tinha seu nome assinalado em mapas como ilha, porto e povoado desde 1502, onde Eugênio de Castro ao referir-se à expedição de Martim Afonso dizia que "o litoral atlântico que se desenvolve no quadrante sudoeste, entre as ilhas de Santo Amaro e do Bom Abrigo - ou o "Portus de São Vicenzo" e o "Rio de Cananor" é o mais remoto cenário geográfico da civilização européia na terra paulista " e constando ainda nas cartas de 1503, 1506 e 1508 ."

Mas é lá que nos deparamos com as dificuldades dos historiadores, pois a "maioria dos documentos que existem sobre o passado da vila de São Vicente e depois cidade de São Vicente datam de um período após 1796. Após a fundação da vila, criou-se um arquivo, que durou pouco, pois em 1536 um pirata chamado Mosquera atacou e saqueou a vila e assim levou o Livro do Tombo, onde todos os acontecimentos do povoado eram registrados. Em 1542, pasmem, um maremoto, destruiu por completo os cartórios paroquial e civil. O marco e o pelourinho, foram tragados pelas águas. Existem registro dos custos de suas recuperações e construções. Recomeçou-se a organizar o arquivo resgatando o que havia escapado ou ficado na memória depois dos dois desastres. Mas isso também durou pouco e, se não falha a memória de uns e outros, foi em 1591 (ou seria 1593) , o corsário Cavendish saqueou São Vicente e é claro ...queimou a documentação existente.
A população já saturada de tanta chateação resolveu então fortificar a cidade. Tudo ia bem até 1667, quando o juiz ordinário da vila, Manoel Vieira Colaça, enlouquecido por conta das toleimas da doidivanas sua amada, segundo uns ou com medo de uma CPI segundo os modernos, queimou todos os livros restaurados, incluindo aí todo e qualquer papel antigo em que pode colocar as mãos. Só escaparam os que estavam no prédio da Câmara. Um secretário da Câmara também deu sua contribuição e sem que saibamos o motivo, tocou fogo em tudo (segundo cronistas o papelório ardeu por três dias).
Mas, o brasileiro é antes de tudo um teimoso e toca a se recuperar o que dava para recuperar e "pimba", surge um trêfego ascendente do talvez real Pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião. Um Secretário da Casa do qual infelizmente não se sabe o nome e que era fogueteiro de profissão, na falta de algo melhor a fazer utilizou documentos para fabricar bombas e foguetes. A história então foi literalmente pelos ares..."

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