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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

artigo - Escrever para crianças é não subestimar o público infantil, dizem jornalistas da Folhinha e Recreio

Não fazer criança de boba. Esta é a chave para o sucesso de um caderno ou revista infantil, de acordo com a editora-assistente do caderno Folhinha, do jornal Folha de São Paulo, Gabriela Romeu. Segundo a jornalista, a apuração de um caderno infantil é a mesma dos grandes cadernos, para o público adulto. A diferença é que o repórter deve saber como entreter uma criança com textos.

“A linguagem deve ser escolhida com cuidado, ser simples e ter frases curtas, no entanto citar uma expressão ou uma palavra difícil faz com que você desafie a criança”.

Outro desafio é entrevistar crianças e evitar respostas monossilábicas. “Se você fizer uma abordagem errada e não convencê-la, ela não vai falar”.
Um dos casos que mais tocou Gabriela como jornalista, aconteceu no Ceará, quando estava cobrindo uma matéria para a Folhinha. Lá ela conheceu adolescentes de 13, 14 anos brincando como crianças. “Atualmente meninas nessa idade já estão em outro universo, o adulto. Hoje é difícil você encontrar uma menina de 13 anos brincando de boneca, porque se percebe, a cada dia, que a infância acaba muito cedo”.

Crianças são consultoras da Recreio
O editor da revista Recreio, Bruno Favoretto, conta com a ajuda de leitores-consultores, crianças que enviam sugestões e opinam sobre as matérias publicadas. Para ele, a linguagem usada nas matérias deve ser bem equilibrada. “Não podemos superestimar, nem subestimar as crianças. Não usamos termos muito técnicos, mas, se usarmos, fazemos analogias para explicar”.

Além dos leitores-consultores, outras crianças também interagem com os jornalistas da redação. “Uma vez fizemos uma twitcam e teve um menino que apareceu falando que fez um adesivo para o ‘cara barbudo’, que era eu. Foi muito engraçado”.

Favoretto relembra outra história, a de uma criança que o emocionou. “Tem vários casos. Tem a de um menino tem uma deficiência séria, ele não consegue andar. Essa criança sempre lê a revista e nos pediu para fazer matérias sobre o Batman. Isso nos emociona”, conta



Priscila Fonseca e Izabela Vasconcelos do Comunique-se

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

artigo - MUSEU, MEMÓRIA E PATRIMÔNIO

Originário do ato de colecionar e preservar, os museus chegaram ao século XXI como instituições indispensáveis à vida e à memória das comunidades, pelo menos em teoria. Inseridos na vida das cidades e amparados por políticas públicas de cultura, muito bem argumentadas no papel, mas sem atrativos para atrair o grande público que prefere o espetáculo dos shoppings ou o paraíso dos templos evangélicos, que oferecem muito mais em troca de um pequeno dízimo: a memória do futuro, a esperança de vida eterna.



Precisamos do bom humor para falar de museu, como no personagem do romance “O Nome da Rosa”. Hoje em dia, no Brasil, em particular na Bahia, falar de museu, e nunca se falou tanto, corre-se o risco de cair no discurso da reserva de mercado. Museus para que e para quem? Fala-se em democratização e facilidade de acesso, mas campanhas publicitárias são dirigidas para a divulgação de atividades reservadas aos profissionais da área em detrimento de programas educativos para formação de público. Como patrimônio público, qualquer cidadão tem direito de entrar no museu e ver o que tem dentro dele. Mas é preciso despertar o desejo de ver, de conhecer, de mergulhar na memória nele depositada.



Precisa-se que alguma coisa seja previamente dada para provocar o olhar, o pensar e produzir conhecimento. Poucos são seduzidos pelo desconhecido, nem se produz conhecimento sem olhar o passado. “Não se inventa idéias sem retificar o passado”, (Bacherlard). Museu e Memória, um tema para se pensar a reafirmação e a transformação da cultura e da arte. É um direito da comunidade, conhecer e refletir sobre o passado, o presente e o futuro, e decidir sobre a memória que deseja preservar.



Perdemos as referências do absoluto, e estamos às voltas com a pluralidade. A memória como a realidade é construída em função de interesses, paixões e desejos, e o que resulta, não é absoluto ou universal. Cada um vê o que está no museu como lhe convém, da mesma forma que coisas, objetos e linguagens chegaram ao museu por interesses e critérios que não são absolutos nem indiscutíveis. Mas nem por isso deixam de ser um patrimônio à espera do olhar clínico e crítico.



Os museus se modernizaram conceitualmente, ressaltando sua importância para a sociedade e o direito à memória. Os de arte, a partir da década de 1960, foram ideologicamente questionados pelas vanguardas artísticas, como o Minimalismo, a Arte Conceitual e a arte contemporânea, mas sua estrutura não foi abalada, ao contrário; foi reforçada. A autenticidade das experiências artísticas depende da legitimação do museu.



Falar de museu de arte no Brasil é difícil não lembrar Mário Pedrosa. Vejam a atualidade de seu pensamento, no texto “Arte Experimental e Museus”, publicado em 1960: “Diferente do antigo museu, do museu tradicional que guarda, em suas salas as obras primas do passado, o de hoje é, sobretudo, uma casa de experiências. É um paralaboratório. É dentro dele que se pode compreender o que se chama de arte experimental, de invenção.” Esse lugar de experiências é também ocupado por um acervo, é um lugar privilegiado do pensamento, da crítica e do lazer criativo para uma apropriação consciente do patrimônio.



Um museu não é uma instituição de eventos culturais, o que nele é exposto não deve ser uma experiência isolada de uma política pública de cultura, sem a responsabilidade de um conselho curador, formado por especialistas da área. O gestor deve ser uma espécie de maestro que rege uma orquestra de intelectuais, críticos e técnicos especializados, para desenvolver enunciados para ser praticados e estabelecer relações mais estreitas com a comunidade.



Dentro de uma cidade existem várias cidades, habitam várias culturas e várias linguagens artísticas, algumas até contraditórias. O museu, em particular o de arte, no seu acervo e na sua programação, deve refletir essa pluralidade, porque ele não é o lugar da exclusão, e sim; do confronto, do diálogo com diferentes manifestações, compatível com a sua função e sua especificidade. Ele guarda uma história, e sem o conhecimento da história, a experiência vira entretenimento.





Almandrade

(artista plástico, poeta e arquiteto)








O AUTOR

Almandrade



(Antônio Luiz M. Andrade)

Artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano, poeta e professor de teoria da arte das oficinas de arte do Museu de Arte Moderna da Bahia .. Participou de várias mostras coletivas, entre elas: XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo; "Em Busca da Essência" - mostra especial da XIX Bienal de São Paulo; IV Salão Nacional; Universo do Futebol (MAM/Rio); Feira Nacional (S.Paulo); II Salão Paulista, I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza); I Salão Baiano; II Salão Nacional; Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972. Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que editou a revista "Semiótica" em 1974. Realizou cerca de trinta exposições individuais em Salvador, Recife, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo entre 1975 e 2005; escreveu em vários jornais e revistas especializados sobre arte, arquitetura e urbanismo. Prêmios nos concursos de projetos para obras de artes plásticas do Museu de Arte Moderna da Bahia, 1981/82. Prêmio Fundarte no XXXIX Salão de Artes Plásticas de Pernambuco em 1986. Publicou os livros de poesias e/ou trabalhos visuais: "O Sacrifício do Sentido", "Obscuridades do Riso", "Poemas", "Suor Noturno" e Arquitetura de Algodão". Prêmio Copene de cultura e arte, 1997. Tem trabalhos em vários acervos particulares e públicos, como: Museu de Arte Moderna da Bahia, Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro), Museu da Cidade (Salvador) e Pinacoteca Municipal de São Paulo. Retrospectiva Museu de Arte Moderna da Bahia, 2000. Exposição “pensamentos” no Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, participa de mostra de poesia visual brasileira no Mexic-Art Museum em Austin. exposição individual “Pequenos Formatos” na galeria ACBEU em Salvador, 2002. Esculturas, Instituto Goethe, Salvador, 2003. Pinturas, Hotel Sofitel, Costa do Sauípe – Ba., 2004. Instalação, Conjunto Cultural da Caixa , Arte Erótica , Escola de Belas Artes da UFBA., Coordena Oficina Arte Cidade no Instituto Goethe, Salvador. Curadoria da mostra SSA 456 Galeria da Cidade, Salvador, 2005. Participa das exposições coletivas “Ode ao Dois de Julho”, Galeria da Cidade, “Modos de Ver e de Entender a Arte”, Museu de Arte da Bahia, Salvador, 2006. A ARTE DE ALMANDRADE , Centro Cultural da Caixa, Salvador 2010.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Artigo - Correspondência Bhaktivedanta: Dr. Mohapatra


Nesta segunda de oito correspondências de Prabhupada selecionadas para publicação no Amigos de Krishna, lemos um excerto da carta de Srila Prabhupada datada de 21 de março de 1976, endereçada ao Sr. Chittaranjan Mohapatra, Mayapur. Nesta carta, Srila Prabhupada enfatiza a importância de sanarmos nossas dúvidas sobre a nossa posição e a posição de Krsna com base na autoridade das escrituras reveladas. Exemplarmente tendo as escrituras por base, Prabhupada responde às perguntas: “Por que devemos sacrificar tudo por Krsna? O que é sacrifício?” e “Como podemos abandonar a atração pelo sexo oposto?”.

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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

artigo - Oiticica - Um Breve Depoimento


Oiticica - Um Breve Depoimento

Festival de Inverno da Universidade católica do Recife,
julho de 1979.


Entre os convidados, Hélio Oiticica para realizar experiências com
“parangolé” e fazer uma rápida retrospectiva de sua obra através de
slides. Eu estava no festival realizando uma pequena exposição que...
tinha um pé na arte conceitual e outro na arte construtiva, com o
título “Manias de Narciso”, que muito impressionou o Oiticica.
Conversamos muito sobre arte, a partir daí.

No seu trabalho com “parangolé”, queria um público da periferia,
marginal, livre de influências culturais acadêmicas, já que via na
marginalidade uma idéia de liberdade. Sem dúvida, era um inventor que
mantinha certo domínio intelectual sobre seu próprio trabalho. Sabia o
que queria e não queria fazer qualquer coisa. Uma noite circulamos
pela periferia da cidade do Recife, na busca de uma escola de samba,
Oiticica, Paulo Bruscky, Jomard Muniz de Brito e Almandrade. Uma
aventura, papos e papos pela madrugada a dentro, de bar em bar nos
arredores da cidade. A vida e a arte, os agitados anos de 1960, a
mangueira, a tropicália, Londres, Nova York etc. A arte era, para ele,
uma experiência quase cotidiana contra toda e qualquer forma de
opressão: social, intelectual, estética e política. Na projeção de
slides na Universidade Católica, as ilustrações dos papos da madrugada
anterior, as imagens de uma obra que a arte jamais se livrará. Arte
concreta, neo-concreta, penetráveis, ambientes coloridos, bólides,
arte ambiental, tropicália etc.

No princípio era Mondrian, Malevith, depois Duchamp. Uma trajetória
exemplar na arte brasileira. Uma tensão entre fazer arte e habitar o
mundo. Foi assim, uma das últimas performances do Hélio. Quase oito
meses depois, misturado com suas obras na solidão de um
apartamento/ninho/penetrável, agonizou por três dias vítima de um
derrame cerebral. Ficou a lembrança de uma brilhante e discreta
presença num festival de inverno em pleno calor do nordeste
brasileiro.

Almandrade (artista plástico, poeta e arquiteto) Suplemento Literário, Belo Horizonte, novembro de 1997

terça-feira, 12 de abril de 2011

ARTIGO - R A M A Y A N A



R A M A Y A N A



Ilustrado e Recontado por Madhava Priya devi dasi



Parte 1 de 2
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e visite www.glimpseofkrishna.com

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A CULTURA, A ARTE E A POLÍTICA CULTURAL

Nas chamadas políticas culturais emergenciais, na maioria das vezes,
são discursos onde a cultura não passa de uma fantasia, uma miragem no
fim do túnel. Como ela não é assunto prioritário, foi transferida para
a iniciativa privada. Os investimentos visam retornos, fala-se em
números, percentuais, nas leis de renúncia fiscal, sem uma idéia clara
de cultura e seu papel na sociedade. Todo mundo se acha no direito de
opinar, o patrocinador, o empresário, o político, o produtor cultural,
o professor universitário, o curador etc. menos o artista e os que
trabalham diretamente com as práticas artísticas, os operários da
linguagem.

Depois da descoberta tardia que a cultura não se restringe às
linguagens artísticas, as práticas acionadoras do pensamento crítico
passaram a ser vistas com desconfiança, "coisas de elite", foram
marginalizada e o entretenimento passou a ser o centro do
financiamento público. A festa passou a ser o alvo dos investimentos
públicos e privados em detrimento da cultura pensamento.

O que deveria ser uma política pública de cultura? Uma pergunta
oportuna em momentos de transição política, quando as reivindicações
reaparecem e as disputas por cargos públicos emergem. Antes de ser um
problema de economia, de leis de incentivo, de política partidária, a
cultura é um dispositivo da cidadania, um direito básico que deve
fazer parte da formação do sujeito. "A cultura é coisa do homem que
mora num certo lugar e num certo tempo" (Gerardo Mello Mourão).
Portanto, antes de falar dos reduzidos recursos econômicos destinados
à área cultural, é estratégico se pensar em intervir culturalmente no
modelo de desenvolvimento que afeta o meio ambiente, as condições
materiais, sociais e culturais de uma comunidade.

Uma política de cultura deve primeiramente levar em conta o quanto ela
contribui para o imaginário das pessoas, tornando-as capazes de
assumir decisões nas suas vidas. Que ela é uma forma de relacionamento
com o mundo e seu cotidiano, antes de ser uma mercadoria e um objeto
da política. Relegada à condição de entretenimento, passou a fazer
parte das diversões, regida pela economia da cultura. E tudo que faz a
economia crescer, que gera emprego e renda é ético nesta sociedade
onde o emprego é cada vez mais difícil. Mas a ética e lógica da
cultura é outra. Se a diversão faz a economia crescer, atende a
demanda de habitantes, e turistas carentes de lazer, poucas vezes
contribui para o aumento e transformação do repertório.

O homem vive entre a natureza e a cultura. E a cultura é uma
construção do homem. Um trabalho. Resultado de um longo caminho. Cada
cidade, estado ou região tem uma cultura que lhe é própria e múltipla.
Uma política de cultura deve garantir a liberdade das diversas
manifestações, sem qualquer interferência, e transferir as decisões
para quem faz cultura, quem conhece as particularidades das
linguagens, quem diretamente lida com o patrimônio material e
imaterial que faz o acervo de uma cultura.

E quando se fala de artes, produtos diversificados e delicados e ao
mesmo tempo conhecimentos específicos que fazem parte de uma cultura,
o político, o produtor ou o atravessador deve ser substituído pelo
técnico ou o especialista do metié. E uma instituição que trabalha com
as artes tem como princípio estimular a liberdade de expressão e não
servir com extensão de outras políticas ou de outras instituições.

Almandrade

(artista plástico, poeta, arquiteto e presidente da Associação de
Artistas Visuais da Bahia)

quinta-feira, 26 de março de 2009

30 anos depois, a greve mantém-se insepulta

Até hoje me lembro deste malfadado evento. Na época deixei de lançar um jornal de bairro para não "furar" a greve. Realmente essa é uma história que merece ser recontada. E não por mim...(E.C.)

ps. alguém ainda tem o cartaz do Fradim do Henfil fazendo top-top?


por (via Comunique-se)

Eduardo Ribeiro

Um excepcional trabalho conduzido pelo repórter free-lancer Rubens Marujo, sobre quem já escrevi aqui em outras oportunidades, acaba de sair do forno: uma suculenta edição especial do jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, sobre os 30 anos da greve de 1979, a completar-se em maio próximo. Ele foi inicialmente planejado para oito páginas, mas acabou saindo com 20, tantos e tão intensos foram os depoimentos colhidos com personagens da base, da cúpula do movimento e também do patronato.

Fica patente nos depoimentos que aquela greve, aprovada numa noite fria do dia 22 de maio de 1979, no Tuca, teatro da PUC, em Perdizes, por 1.692 profissionais, foi histórica na sua capacidade de mobilização e desastrosa na organização e nos resultados obtidos, levando os jornalistas de São Paulo a uma dura derrota, com graves consequências.

Participei intensamente daquela greve, comparecendo a todas as assembleias, às reuniões na redação em que trabalhava (revista A Construção São Paulo, da Editora Pini) e aos piquetes na porta do Estadão e da Folha de S.Paulo. Mas, novato ainda, eu era apenas um militante de baixa graduação no então florescente movimento sindical.

Eu quis a greve como a esmagadora maioria da categoria e como ela muito menos pelas reivindicações postas na mesa (aumento real de 25% fora da data base e estabilidade no emprego para os membros do Conselho Consultivo de Representantes da Redação – CCRR) e muito mais para turbinar aquele momento histórico de luta pela redemocratização do País.

Neste belo e histórico trabalho conduzido por Marujo, para o Unidade, os depoimentos falam por si. Otavio Frias Filho, do Grupo Folha, por exemplo, lembra que “na época, eu entendia bem as razões políticas dos grevistas e simpatizava com elas. Mas atuei no fechamento do jornal naqueles dias, atendendo a uma solicitação de meu pai, o Sr. Frias, que estava convencido de que ceder, naquele momento, enfraqueceria demais a posição dos jornais. E penso hoje que ele estava certo”. Frias também confirma uma afirmação que ficou na cabeça de todos os jornalistas e patrões desde então: “Não diria que após a greve os patrões se ‘uniram para demitir jornalistas ao longo do tempo’. Penso que a greve teve um efeito perverso, do ponto de vista sindical: ela mostrou que era possível fazer edições sofríveis com apenas cerca de 20% dos efetivos das redações. Ficou óbvio que as redações estavam em alguma medida inchadas e por esse motivo houve dispensa de parte dos profissionais nos meses seguintes”.

A opinião externada pelo diretor de Opinião do Grupo Estado, Ruy Mesquita, sobre aquele movimento é um soco no fígado dos que votaram ou defenderam a greve com todas as forças: “A greve, como dissemos à época, foi ‘injusta, inconsequente, irresponsável, inoportuna, anti-democrática e, finalmente, ilegal”. Ruy também afirmou que “outro mito a respeito do movimento é o de que 90% dos jornalistas abandonaram seus postos de trabalho. Não houve tal adesão. Nos primeiros dois ou três dias, houve, de fato, considerável número de ausências, motivadas, em boa parte, pelos métodos agressivos e nem um pouco pacíficos utilizados pelos piquetes para impedir o acesso às redações dos jornalistas que queriam trabalhar. Esses problemas foram sendo contornados e, no sexto dia da greve, pelo menos dois terços dos jornalistas que trabalhavam nas redações do Grupo Estado estavam a postos.

O então presidente do Sindicato, David de Moraes, recluso, diz que não quer mais falar sobre essa greve – “esqueça que eu existo e coloque tudo que já saiu a respeito na minha boca”, afirmou a Marujo, que no texto relatou que encontrou ao telefone um David de Moraes arrasado. David foi responsabilizado por tudo que de ruim aconteceu, chegando a ser chamado maldosamente de Jim Jones, o missionário que levou centenas de pessoas ao suicídio anos antes. Mas há também muitos colegas que o defendem, afirmando que ele foi injustiçado e que não faz qualquer sentido responsabilizá-lo individualmente pelos acontecimentos. Aos 72 anos, aposentado e fazendo alguns frilas de vez em quando, como ressalta Marujo, David quer distância dessa polêmica: “Você sabe muito bem que o Lula tinha voz de comando. Quando ele dizia que ia fazer uma greve, todos os metalúrgicos respeitavam. Mas jornalista é diferente, todo mundo quer dar palpite e deu no que deu”.

Em sua defesa saiu Vicente Alessi Filho, à época um importante militante sindical e que hoje é sócio-diretor da Autodata Editora. Diz Vicente: Há jornalistas que foram justiçados com rigor como consequência da greve de 1979, principalmente pelo seu tão óbvio e incondicional alinhamento aos patrões. David de Moraes, nosso presidente naqueles dias, não é um desses. A palavra que se aplica a ele é outra: injustiçado. Sacanamente injustiçado. Chamado de Jim Jones entredentes nos desvãos das escadas por gente sem coragem para qualificá-lo pessoalmente. E por gente que, por outras razões, queria ver sua gestão navegar no descrédito”. Vicente não cita nome mas garante ter havido naquele movimento a participação sórdida de uma quinta-coluna: “Tantos anos passados, pode me falhar alguma cronologia dos fatos. Mas jamais me faltará a repulsa por grupo político que, depois de defender com ardor a criação dos CCRR, os Conselhos de Redação, e de incentivar a greve, abandonou-a imediatamente após a sua decretação. Animar o sentimento de greve e imediatamente deixá-la à própria sorte foi tática daquele grupo político. Ou seja: a quinta-coluna aconteceu de caso pensado. O caso foi urdido dias antes da assembleia de decretação da greve.”

Alberto Dines, idealizador e diretor do Observatório da Imprensa, diz que “o efeito mais devastador da greve foi a criação da ANJ, Associação Nacional de Jornais (que inicialmente incluía a Editora Abril). A criação de uma entidade deste tipo é, em si, legítima. Mas pode ter consequências catastróficas quando a aproximação entre veículos liquida o pluralismo. O patronato carioca e paulista dividia-se em feudos, as empresas não se comunicavam, os grandes barões da imprensa não se falavam, os aristocratas quatrocentões desprezavam ostensivamente os ‘arrivistas’. A mediação era exercida por políticos ou grandes empresários. A greve uniu o patronato definitivamente.”

Outro depoimento importante presente nesse Especial vem de Audálio Dantas, ex-presidente do Sindicato e da Fenaj, que lembra: “Em 79 eu era deputado federal e estava, portanto, fora das redações. Mas acompanhei de perto a greve, participei de assembleias, numa das quais, na Igreja da Consolação, Emir Nogueira (Nota da Coluna: que viria a suceder David de Moraes, no comando do Sindicato, falecendo no exercício da função) fez um discurso profético: a greve podia fracassar, pela simples razão de que os jornais continuavam circulando, muitos deles noticiando a greve na primeira página. Era uma posição digna e corajosa, pois Emir, mesmo exercendo cargo de chefia na Folha, participava do movimento, a despeito de dele discordar em vários aspectos”.

Lu Fernandes, então uma jovem repórter e a quem o destino reservou a missão de suceder Emir Nogueira no comando do Sindicato pouco tempo depois, disse que “nem nos meus piores pesadelos poderia imaginar o ambiente e a contra-ofensiva que assistimos nas redações na volta ao trabalho. Demissões em massa, ressentimentos, sentimento de derrota, apesar da formidável adesão”.

Ricardo Kotscho, hoje repórter da revista Brasileiros e à época da revista IstoÉ, escreveu para o especial um trecho do que publicou em seu livro Do golpe ao Planalto – Uma vida de repórter: “Embora a adesão à greve tivesse sido expressiva, nenhuma publicação deixou de circular no período, o que levou alguns colegas mais desesperados a pichar em muros o apelo: ‘Não compre jornais’. No cemitério do Araçá, na avenida Doutor Arnaldo, um gaiato acrescentou: ‘minta você mesmo’”. Kotscho disse também que “não tenho nenhuma saudade desta greve nem daquele período negro da nossa história, todos nós ainda submetidos a uma feroz ditadura militar. A maioria dos brasileiros hoje vive melhor e, o que é mais importante, em plena liberdade”.

Juarez Soares, que à época trabalhava na Globo e hoje é apresentador e comentarista esportivo da Rádio Record, recorda de ter participado ativamente da greve: “Falava com veemência em todas as assembleias. Era totalmente a favor da greve, defendia este ponto de vista. Deixava isso bem claro. Como sempre acontece, os pontos de vista eram conflitantes. Me lembro que eu argumentava contra a posição de Emir Nogueira, jornalista que tinha sido professor de grande parte dos que compareciam à assembleia. Emir era contra a greve. Existia o Partidão e sua incontrolável vocação para comandar. O Partidão nunca deixou claro para mim, se queria a greve ou não. Mas esteve presente no comando da paralisação. A Libelu, outra facção política, incendiava as assembleias. Queria por que queria, a greve”. Juarez lembrou ainda que naquele momento entrou em cena a figura de Luís Fernando Mercadante, diretor de Jornalismo da Globo em São Paulo: “Desde os primeiros sinais da greve, ele foi claro: ‘Apoio a decisão de vocês e seguro a bronca’. Sempre esteve do nosso lado. Quando a greve terminou, eu procurei o Mercadante para conversar. Expliquei que ele não poderia fazer mais nada. Entreguei a ele uma lista com sete nomes. De comum acordo, estávamos entregando nossos cargos e empregos para que os demais companheiros fossem preservados. Eram 126. Assim foi feito”.

Juca Kfouri foi outro que ressaltou o papel sereno de Emir Nogueira durante o movimento: “Ele sim foi exemplar ao lado de tantos companheiros que se sacrificaram por uma causa perdida. Porque, ao contrário de tantos que por discordar da greve aprovada legitimamente trataram de furá-la vergonhosamente, Emir deixou um cargo de confiança na Folha, parou junto com a categoria e não deixou de ser a ponderação em pessoa, apesar de estrepitosamente vaiado”. Afirmou também: “Teria sido muito melhor não ter feito aquela greve, embora, que fique claro, eu não me arrependa de tê-la feito, porque éramos nós e nossas circunstâncias”.

Eu também dei a esse especial meu modesto depoimento. No trecho final destaco: “Foram momentos de muita emoção, de catarse, de reencontro com algo maior que estava presente em nossos corações e mentes. Momentos de coragem de quem queria a greve e de prudência e sabedoria dos que não a queriam. Perderam os vencedores e venceram os perdedores. Coisas da Vida. Mesmo derrotada, a greve de 1979 foi o maior movimento da história do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, só comparável à mobilização de três anos antes que se sucederia ao assassinato de Vladimir Herzog, em outubro de 1975, nos porões do Doi-Codi, de São Paulo. Foram tempos realmente muito difíceis e que deixaram cicatrizes. Mas a história se constroi com vitórias e derrotas”.

Vale a pena ver a edição. Para quem é do metier, é documento imprescindível.

(*) É jornalista profissional formado pela Fundação Armando Álvares Penteado e co-autor de inúmeros projetos editoriais focados no jornalismo e na comunicação corporativa, entre eles o livro-guia "Fontes de Informação" e o livro "Jornalistas Brasileiros - Quem é quem no Jornalismo de Economia". Integra o Conselho Fiscal da Abracom - Associação Brasileira das Agências de Comunicação e é também colunista do jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, além de dirigir e editar o informativo Jornalistas&Cia, da M&A Editora. É também diretor da Mega Brasil Comunicação, empresa responsável pela organização do Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Sons Silenciosos



Sons Silenciosos



Silent Sounds



por Urmila Devi Dasi





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