quarta-feira, 15 de agosto de 2018
segunda-feira, 30 de julho de 2018
quinta-feira, 19 de julho de 2018
Editora 34 lança CINEMA 2 - A IMAGEM-TEMPO, de Gilles Deleuze
Cinema 2 — A imagem-tempo
Gilles Deleuze
Tradução de Eloisa Araújo Ribeiro
Coleção Trans | 424 p. | 14 x 21 cm | 460 g. | ISBN 978-85-7326-711-2 | R$ 68,00
O volume Cinema 2 — A imagem-tempo completa o projeto de Gilles Deleuze para fazer da sétima arte uma forma de pensamento. Nele, o filósofo deixa o território diversificado da arte cinematográfica clássica, predominante em A imagem-movimento e que já havia atingido o ápice na virada da década de 1930 para a de 1940, para mergulhar em filmes deliberadamente fora dos enquadramentos dessa linguagem. O marco histórico foi a Segunda Guerra Mundial, que havia levado a experiência humana a extremos nunca antes vistos; e o marco estético foi o neorrealismo italiano, criação original em meio às ruínas da guerra, ambos exemplificados magistralmente nos filmes de Roberto Rosselini.
Segundo Deleuze, nessa dupla passagem o cinema vai da imagem-movimento para a imagem-tempo, da linearidade para a descontinuidade, dos cortes racionais para os irracionais, muitas vezes dissociando imagem e som. O arco de estilos e linguagens é bastante amplo: de mestres precursores como Yasujiro Ozu, Luis Buñuel e Orson Welles, passando pela comissão de frente da nouvelle vague, até Glauber Rocha, ponta-de-lança de uma cinematografia revolucionária na periferia do sistema de produção, mas com alcance estético mundial.
Sobre o autor
Gilles Deleuze nasceu em 1925, em Paris. Estudou no Liceu Carnot e depois filosofia na Sorbonne, onde obteve o Diploma de Estudos Superiores em 1947. Entre 1948 e 1957 lecionou nos liceus de Amiens, Orléans e no Louis-Le-Grand, em Paris. Trabalhou como assistente em História da Filosofia na Sorbonne entre 1957 e 1960, e foi pesquisador do CNRS até 1964, ano em que passou a lecionar na Faculdade de Lyon, lá permanecendo até 1969. De 1969 a 1987, deu aulas na célebre Universidade de Vincennes, um dos polos do ideário de Maio de 1968, quando firmou a sólida e produtiva relação com Félix Guattari de que resultaram os livros O anti-Édipo (1972), Kafka (1975), Mil platôs (1980) e O que é a filosofia? (1991). É autor também de obras fundamentais como Diferença e repetição (1968), Lógica do sentid o (1969), Cinema 1 — A imagem-movimento (1983), Cinema 2 — A imagem-tempo (1985) e Crítica e clínica (1993), além de estudos sobre Hume, Kant, Bergson, Nietzsche, Espinosa e Foucault, entre outros. Faleceu em Paris, em 1995, e é hoje considerado um dos mais importantes filósofos do século XX.
Sobre a tradutora
Eloisa Araújo Ribeiro nasceu em Belo Horizonte e vive no Rio de Janeiro. É graduada em Artes Cinematográficas pela Universidade de Paris VIII — Vincennes-Saint-Denis, e obteve o título de mestre em Língua e Literatura Alemã pela Universidade de São Paulo com dissertação sobre o escritor suíço-alemão Robert Walser. Traduziu, entre outros: Cinema 2 — A imagem-tempo, de Gilles Deleuze (1990); O que é o cinema?, de André Bazin (1990); O sequestrado de Veneza/Veneza, de minha janela, de Jean-Paul Sartre (2005); e Novelas (2006), O despovoador/Mal visto mal dito (2008) e Textos para nada (2015), de Samuel Beckett.
Texto de orelha
Quando, após a Segunda Guerra Mundial, as imagens cinematográficas passam a ser encadeadas por cortes irracionais e o tempo deixa de decorrer do movimento, surgem os signos ópticos e sonoros puros, desprendidos das situações sensório-motoras.
É o neorrealismo italiano que inaugura um cinema do vidente, quando a personagem, incapaz de reagir ao que lhe acontece, torna-se o espectador paralisado diante de uma realidade intolerável, bela ou horrível demais. São as heroínas de Roberto Rossellini em Stromboli e Europa ’51 que melhor exprimem a nova condição, em que a imagem vista se conecta ao sonho, à lembrança ou ao pensamento (mas eles ainda constituem circuitos muitos amplos em torno da imagem atual).
Quando se atinge o circuito mais estreito entre o atual e o virtual — o que tornará indiscerníveis o objetivo e o subjetivo, o real e o imaginário, o físico e o mental — forma-se um cristal de tempo, que não remete mais nem à consciência nem ao estado psicológico da personagem. O que vemos na imagem-cristal é o tempo em pessoa, como nos filmes de Werner Herzog, Andrei Tarkóvski, Max Ophüls, Jean Renoir, Federico Fellini e Luchino Visconti. No cristal o tempo se bifurca e jorra em duas direções: a dos passados que se conservam e a dos presentes que passam, segundo as formulações de Henri Bergson em Matéria e memória (1896).
Surgem daí os lençóis do passado, como no cinema de Alain Resnais, e as pontas do presente, como no de Alain Robbe-Grillet. Ao criar uma descrição que vale pelo seu objeto e uma narração livre do modelo da verdade, o regime cristalino da imagem conduz às potências do falso, como na obra de Orson Welles, em que estão presentes falsários e simuladores.
O tempo, no entanto, não se torna sensível sem que o pensamento ganhe uma nova configuração. O personagem vidente, imobilizado diante do que vê — como uma múmia — transforma-se no autômato espiritual, atingido pelos choques que alcançam o córtex. Tendo perdido seu vínculo sensório-motor com o mundo, o autômato subjetivo inaugura tanto um cinema do espírito (Antonin Artaud, Carl Dreyer, Éric Rohmer) quanto um cinema do corpo (Michelangelo Antonioni, Jean-Luc Godard, Carmelo Bene, Andy Warhol e John Cassavetes).
Como crer neste mundo, sem recorrer a uma transcendência política ou religiosa? De agora em diante, o cinema — inclusive em sua vertente abertamente política —, a exemplo de Jean-Marie Straub/Danièle Huillet e Glauber Rocha, se valeria de composições inéditas entre o ato de fala, o ato sonoro e o ato musical, montados de maneira disjuntiva, como em Marguerite Duras ou Hans-Jürgen Syberberg.
Tendo abandonado a figura do todo aberto, próprio da imagem-movimento — objeto do livro Cinema 1, que precede este volume —, atraído por um fora que não era mais o do fora de campo, governado pelo discurso indireto e a visão livres, o cinema permitia ao espectador experimentar, enfim, de dentro, diretamente, as múltiplas formas do tempo, tornadas visíveis e sonoras.
César Guimarães
sexta-feira, 25 de maio de 2018
Com nova tradução, Editora 34 lança ALMAS MORTAS, de Nikolai Gógol
Nikolai Gógol Almas mortas
Tradução, prefácio e notas de Rubens Figueiredo
Posfácio de Donald Fanger
Coleção Leste | 432 p. | 16 x 23 cm |667 g. | ISBN 978-85-7326-699-3 | R$ 79,00
Almas mortas, publicado pela primeira vez em 1842, é o livro precursor do romance clássico russo e a grande obra-prima de Nikolai Gógol (1809-1852). A narrativa traz a história de um especulador de São Petersburgo que chega a uma cidade de província e procura conquistar, com suas boas maneiras, a simpatia da sociedade e dos senhores de terras locais. Seu objetivo: comprar “almas mortas”, ou seja, servos já falecidos, mas que ainda não haviam sido declarados como tal no último censo. É em torno desse tema — que lhe teria sido sugerido por Púchkin — que Gógol tece um dos retratos mais certeiros, a um só tempo satírico e afetuoso, do povo russo. Destaca-se na obra a voz do narrador, alter ego do autor, que imediatamente nos cativa pela imaginação e irreverência de suas descrições e observaçõ es. Mesmo que pareçam escapar ao fio da meada e ao bom senso, elas acabam compondo um quadro extremamente perspicaz de um país que ainda buscava sua identidade e os caminhos para se modernizar.
Esta nova tradução, realizada por Rubens Figueiredo, tem por base a mais recente edição crítica russa, e é acompanhada de quatro textos publicados em 1847, inéditos em português, em que Gógol comenta seu processo de criação e as reações causadas pelo romance. O volume inclui ainda os rascunhos que restaram da segunda parte de Almas mortas, além de um ensaio de Donald Fanger, professor emérito da Universidade de Harvard, que analisa em detalhe a prosa exuberante do genial autor russo.
Sobre o autor
Nikolai Vassílievitch Gógol nasceu em 1809 em Sorotchíntsi, na Ucrânia. Em 1829 muda-se para Petersburgo, onde publica os poemas “Itália” e Hanz Küchelgarten, de caráter romântico. Em 1830 frequenta a Academia de Belas-Artes, dá aulas em um colégio para meninas e considera tornar-se ator. Com a ajuda de amigos consegue um cargo de professor na Universidade de São Petersburgo. Baseado em lembranças da Ucrânia, elabora os dois volumes de Serões numa granja perto de Dikanka, publicados em 1831 e 1832 e recebidos com entusiasmo pela crítica. Deixa a universidade e dedica-se integralmente à carreira de escritor, publicando em 1835 duas coletâneas de contos e novelas: Arabescos, que traz “Avenida Niévski”, “Diário de um louco” e “O retrato”; e Mírgorod, que inclui & ldquo;A briga dos dois Ivans” e o épico Tarás Bulba. Em algumas dessas obras já se dá a passagem dos temas rurais e folclóricos para os urbanos e fantásticos.
No ano seguinte publica os contos “A carruagem” e “O nariz”, além da comédia O inspetor geral, considerada um marco na história do teatro russo. Ainda em 1836 parte em viagem para o exterior, passando pela Suíça e França, e fixando residência em Roma. Se dedica então ao projeto de um ambicioso romance, Almas mortas, que seria publicado em 1842. No ano seguinte, em uma edição de suas obras completas, aparece pela primeira vez “O capote”, um dos contos mais influentes da literatura russa. A última década de sua vida é marcada por crises de depressão e um ascetismo religioso exacerbado. Adoece constantemente, e em 1847 publica Trechos selecionados da correspondência com amigos, textos ensaísticos muito criticados por seu conservadorismo. Retoma então a redação da segunda parte de Al mas mortas, iniciada ainda na década de 1840, mais queima todos os manuscritos em 1852, ano em que morre em Moscou.
Sobre o tradutor
Rubens Figueiredo nasceu em 1956. É professor de português aposentado da rede estadual do Rio de Janeiro, escritor e tradutor. Entre seus livros estão os romances Barco a seco (2001, Prêmio Jabuti), Passageiro do fim do dia (2010, Prêmio Portugal-Telecom e Prêmio São Paulo) e os livros de contos O livro dos lobos (1994-2008), As palavras secretas (1998, Prêmio Jabuti e Prêmio da Biblioteca Nacional) e Contos de Pedro (2006). Suas traduções incluem obras de Anton Tchekhov, Ivan Turguêniev, Ivan Gontcharóv, Maksim Górki, Lev Tolstói e Isaac Bábel, entre outros. Recebeu o prêmio da Biblioteca Nacional pela tradução de Ressurreição e os prêmios da Academia Brasileira de Letras e da APCA pela tradução de Guerra e paz, ambos de Tolstói.
Texto de orelha
Deixando a Rússia em 1836, Nikolai Gógol passaria doze anos no estrangeiro, onde escreveria o seu poema Almas mortas. Residindo ora na Suíça, ora em Paris, ora em Roma, continuou mantendo vasta correspondência com os amigos na Rússia, pedindo-lhes descrições de tipos e de ambientes, a fim de enriquecer a obra, mas decepcionando-se com os parcos resultados assim obtidos.
E, no entanto, os tipos que o espertalhão criado por Gógol, Tchítchikov, encontra em sua peregrinação pelo interior do país têm para os russos a vivência dos símbolos eternos, e os seus nomes já passaram até para a linguagem comum: Pliúchkin é a personificação da avareza, Manílov, da mediocridade melíflua, sentimental e autossuficiente, etc. É o livro em que Gógol pôs mais de si mesmo, e a ação se interrompe frequentemente com divagações do autor, com páginas poéticas sobre o mundo russo, a natureza humana, etc. Mas não se pode considerá-las descabidas, pois toda a estrutura da obra é assim difusa, extensa, espraia-se livre, ilimitada. Alguns críticos censuram-lhe até hoje essa estrutura, mas, na realidade, não se pode exigir do escritor intenç&otil de;es que ele não teve. Como enquadrar no gênero romance, e romance do século XIX, uma obra que o próprio autor considerou, e com muita razão, um poema? Por vezes, a ação escapa ao simples bom senso, mas justamente nisso reside um dos traços mais geniais de Gógol. Como censurá-lo por nos ter deixado esse painel magnífico, em lugar de uma fotografia?
A obra ultrapassara, porém, as intenções conscientes e declaradas do autor, o que foi apontado mesmo por críticos contemporâneos de Gógol. Este era um homem educado no respeito à tradição, ao regime autocrático, na veneração à chamada Santa Rússia. E o que ele mostrava, com a sua capacidade de captar os absurdos da realidade, era um sistema em que os camponeses, as “almas”, eram vendidos e revendidos e, mesmo depois de mortos, continuavam sendo objeto de comércio. E a sua Santa Rússia, embora a apresentasse num trecho famoso como uma troica em vertiginosa corrida, tinha os velhos caminhos lamacentos, com casinhas acachapadas, em que viviam seres mergulhados na mediocridade provinciana.
Publicada em 1842 a primeira parte do seu vasto poema, procurou remediar a situação nas partes seguintes. Passou a concebê-lo como uma Divina Comédia russa, em que a primeira parte fosse o Inferno, a segunda, o Purgatório, e a terceira, o Paraíso. Assim, já na segunda, apareciam um proprietário rural benfeitor dos seus servos e outros tipos igualmente positivos, mas apresentados de maneira forçada. Deixando de explorar plenamente a veia satírica, o sarcasmo, o grotesco, Gógol não conseguia atingir o nível da primeira parte. Foi o que a crítica depreendeu das páginas que subsistem da segunda, embora também ali apareça o gênio criador de Gógol. O período em que a escreveu ficou marcado por uma intensa crise mística, enquanto a sua saúde declinava.
Pouco antes de morrer, Gógol queimou todos os manuscritos que tinha à mão, isto é, a segunda e a terceira partes de Almas mortas. Subsistiriam, no entanto, duas versões de uma fração da segunda, por existirem cópias. A parte queimada, testemunha um contemporâneo, teria sido superior à que subsiste, mas não há elementos seguros para confirmá-lo.
À medida que passa o tempo, “esse estranho Gógol”, cujas características psicológicas reais e cuja biografia se tornam cada vez mais difíceis de reconstituir, aparece menos estranho para nós. Pois, quando refletimos sobre a sua obra, ficamos admirados com a sua modernidade. Realmente, é difícil repetir hoje em dia o espanto de Prosper Mérimée ante o ilógico, o fantástico, da realidade descrita por Gógol. Depois de Kafka, não nos surpreende tanto esse mundo gogoliano, que os contemporâneos tinham muita dificuldade em admitir no seu valor geral e simbólico, e não apenas como simples descrição de costumes ou como uma acusação aos aspectos negativos da vida russa. Se temos de reconhecer a importância dessa acusação, somos também levados a aceitar Gógol como o grande desbravador de novos c aminhos, o gênio que nos mostra não só a Rússia de seu tempo, mas também a nossa condição humana. Eis por que nos voltamos, com respeito sempre crescente, para o legado desse “estranho” escritor, que nos aparece cada vez mais próximo e familiar.
Boris Schnaiderman
terça-feira, 22 de maio de 2018
[coleção Fábula] Editora 34 lança COMO SE REVOLTAR?, de Patrick Boucheron
Patrick Boucheron
Como se revoltar?
Tradução de Cecília Ciscato
Projeto gráfico de Raul Loureiro
Coleção Fábula | 64 p. | 12 x 18 cm | 84 g. | ISBN 978-85-7326-694-8 | R$ 34,00
Na breve conferência Como se revoltar?, Patrick Boucheron
aborda o tema da insurgência social de um ponto de vista inesperado: o
da época medieval. Mais do que uma idade das trevas, de crença cega e
opressão brutal, o período é também pródigo de figuras irreverentes e
rebeldes, como Robin Hood e Ivanhoé, e de revoltas religiosas e
insurreições camponesas. Recontando alguns desses fatos, o historiador
francês nos convida a visitar uma outra Idade Média, fascinante,
contraditória e cheia de alertas e sugestões para os tempos presentes —
pois, para ele, “a história é uma arte da emancipação”.
O que um estudioso da Idade Média poderia ter a dizer sobre a
revolta? Nada ou muito pouco, à primeira vista: a época medieval não é,
justamente, uma idade de trevas, feita de crença cega e opressão brutal?
Mas, sendo assim, como explicar o fascínio juvenil que ela
continua a nos inspirar? Os castelos e igrejas, símbolos de poder
temporal e espiritual, certamente não bastariam, como observa Patrick
Boucheron nesta conferência irresistível sobre Como se revoltar?
Se a Idade Média nos acompanha desde a escola e não cessa de irrigar
nosso imaginário adulto, isso se dá na exata medida em que ela é pródiga
de figuras irreverentes e rebeldes, numa gama que vai do bobo da corte
ao cavaleiro solitário, de Robin Hood a Ivanhoé, do herege ao camponês
revoltado. Recontando algumas dessas histórias e lançando uma luz
surpreendente sobre seus personagens, o historiador francês convida o
leitor a visitar uma outra Idade Média, fascinante, contraditória e
cheia de alertas e sugestões para os tempos presentes — pois, para
Boucheron, “a história é uma arte da emancipação”.
Sobre o autor
Patrick Boucheron, nascido em Paris, em 1965, é um historiador
especializado na Idade Média, em particular na península italiana.
Depois de concluir os estudos na Escola Normal Superior de Saint-Cloud e
o doutorado na Sorbonne, ensinou em diversas instituições antes de ser
eleito em 2015 para uma cátedra no Collège de France. Entre seus livros,
destacam-se Léonard et Machiavel (2008) e Conjurer la peur: Sienne, 1338 (2013).
Intelectual presente na cena pública, Boucheron coordenou dois projetos
editoriais em que tentou levar a prática de sua disciplina além do
campo das histórias nacionais: Histoire du monde au XVe siècle (2009) e Histoire mondiale de la France (2017).
Sobre a tradutora
Cecília Ciscato nasceu em São Paulo, em 1977. Graduada em Letras pela
Universidade de São Paulo (2011), é também mestre em língua francesa
pela Université Paris Descartes (2015). Traduziu o Discurso do prêmio Nobel de literatura 2014, de Patrick Modiano (Rio de Janeiro: Rocco, 2015), e verteu, para a coleção Fábula, Que emoção! Que emoção?, de Georges Didi-Huberman (2016), Outras naturezas, outras culturas, de Philippe Descola (2016) e O homem que plantava árvores, de Jean Giono (2018, em colaboração com Samuel Titan Jr.).
Texto de orelha
Falamos o tempo todo de revolta, em todos os domínios da vida. Ideia
praticamente unânime, ela parece bastar a si mesma e nos dispensar de
pensar a seu respeito. Nada de mais enganoso, afirma o historiador
Patrick Boucheron. Que revolta é essa, tão normal que mais parece fazer
parte da ordem das coisas? E, se há revoltas que ameaçam pôr o
mundo de cabeça para baixo, não há também outras que parecem servir mais
ao poder que à liberdade? Não haverá, então, coisas muito diversas e
mesmo contraditórias sob essa palavra que ora ofusca, ora esclarece? De
pergunta em pergunta, Boucheron convida o leitor à questão maior que dá
título a este livro: Como se revoltar?
A fim de sugerir algumas pistas, o autor toma distância e recua até a
Idade Média europeia, revisitando imagens e figuras que até hoje povoam
nosso imaginário: cavaleiros andantes e bobos da corte, Robin Hood e
Ivanhoé, a cruzada das crianças e as revoltas camponesas... Com grande
simpatia por seus personagens, Boucheron mostra os muitos sentidos que
as revoltas puderam assumir, a imensa variedade de atitudes que homens e
mulheres medievais experimentaram, as relações que mantiveram com a
ordem vigente e, mais que tudo, as possibilidades que abriram — para
seus protagonistas, é claro, mas também para o presente.
Volume originalmente editado na coleção Les Petites Conférences,
publicada na França pela editora Bayard, esta breve conferência de
Patrick Boucheron sobre a revolta foi proferida em Montreuil, perto de
Paris, em 13 de fevereiro de 2016, e chega agora ao leitor brasileiro no
âmbito da coleção Fábula.
quinta-feira, 3 de maio de 2018
quinta-feira, 26 de abril de 2018
Nova edição de O DESENTENDIMENTO, uma das obras mais importantes de Jacques Rancière
O desentendimento
Jacques Rancière
Tradução de Ângela Leite Lopes
Coleção Trans | 160 p. | 14 x 21 cm | 212 g. | ISBN 978-85-7326-692-4 | R$ 45,00
Para Jacques Rancière, a política não é uma atividade rotineira,
tampouco uma prática corrente nos sistemas consensuais que caracterizam
boa parte das sociedades contemporâneas. A política é rara, e só
acontece verdadeiramente nos momentos em que uma “parte dos que não têm
parte” rompe a lógica supostamente natural da dominação e “faz ouvir
como discurso o que antes só era ouvido como ruído”.
Publicado na França em 1995, O desentendimento é uma das
obras mais importantes deste que é reconhecido como um dos grandes
pensadores da atualidade. Partindo das definições do político em Platão e Aristóteles, reinterpretando as revoltas dos escravos na Antiguidade, distinguindo as noções de polícia e política,
e analisando as implicações do ato de falar que estão na base das
disputas sociais, o livro desemboca numa crítica aguda às
pós-democracias midiáticas, nas quais o “povo” é apresentado sob a forma
reduzida da estatística e da sondagem de opiniões. Contra esse estado
de coisas, seu autor propõe o entendimento da comunidade política como
“comunidade de litígio”.
Obra de atualidade impressionante, ocupando um lugar seminal na trajetória de Rancière, O desentendimento tem agora nova edição no Brasil, inteiramente revista e anotada.
Sobre o autor
Considerado um dos maiores intelectuais franceses da atualidade,
Jacques Rancière nasceu em Argel, em 1940, e é Professor Emérito de
Estética e Política da Universidade de Paris VIII —
Vincennes/Saint-Denis, onde lecionou de 1969 a 2000. Entre seus livros
destacam-se A lição de Althusser (1975), A noite dos proletários (1981), O mestre ignorante (1987), Os nomes da história (1992), O desentendimento (1995), A partilha do sensível (2000), O inconsciente estético (2001) e Aisthesis: cenas do regime estético da arte (2011).
Texto de orelha
Mais uma vez Jacques Rancière, um dos mais originais filósofos
políticos da atualidade, professor na Universidade de Paris, ataca as
evidências imediatas pelas quais é pensado o poder. Partindo de um
reexame da democracia nos clássicos gregos e da rebelião da plebe romana
contra o patriciado, Rancière pensa a política a partir do desentendimento.
Longe de ser o lugar da harmonia, com os homens se entendendo pelo bem
comum, a política é esse conflito, no qual o povo — a plebe, os que não
têm título algum para fundar suas pretensões ao poder — manifesta um
escândalo primeiro, decisivo: o escândalo de querer falar e dizer.
O escândalo da democracia está em nascer de um simples fato: o fato
de que o povo não legitima suas pretensões nem pelo nascimento, como os
nobres, nem pela riqueza, como os burgueses. Mas desde Platão a
“filosofia política” nega essa pura contingência e tenta fundar o que
não pode ser fundado. Ora, somente a atenção a esse caráter precário do
político permitirá, em nossos tempos de um fácil mas duvidoso consenso,
compreender por que e como a política se dá nos movimentos sociais,
tanto ou mais que nas assembleias da democracia representativa
tradicional. Vê-se como Rancière se opõe à opinião dominante nos meios
de comunicação e na fala do poder.
O desentendimento é a chave para entendermos a luta pela palavra e
pela razão, crucial em política. Negar racionalidade à plebe é a grande
estratégia de dominação desde a Antiguidade, bem-sucedida quando os
citas se recusam a usar armas contra seus escravos rebelados, preferindo
chicoteá-los como animais, malsucedida quando o patrício romano Menênio
Agripa tenta explicar aos plebeus em greve que eles não têm acesso à
linguagem.
Estratégia velhíssima mas atual. A discussão política indaga quem tem
direito a proferir um discurso portador de sentido. E por isso uma
política democrática tem de romper com a “filosofia política”
convencional, que se define por querer abafar o escândalo que é a plebe
falar de poder.
Renato Janine Ribeiro
quarta-feira, 11 de abril de 2018
segunda-feira, 9 de abril de 2018
Editora 34 lança O HOMEM QUE PLANTAVA ÁRVORES, do escritor francês Jean Giono
O homem que plantava árvores
Jean Giono
Tradução de Cecília Ciscato e Samuel Titan Jr.
Ilustrações de Daniel Bueno
Projeto gráfico de Raul Loureiro
Coleção Fábula | 64 p. | 15 x 22,5 cm | 238g | ISBN 978-85-7326-691-7| 2018 - 1ª edição | R$ 49,00
Escrita por Jean Giono em 1953 e traduzida para inúmeros idiomas,
esta breve narrativa é considerada um dos mais cativantes manifestos
ecológicos e humanistas da literatura do século XX. Trazendo a história
de um solitário pastor de ovelhas que dedica sua vida a reflorestar uma
inóspita região do sul da França, O homem que plantava árvores
demonstra como o renascimento da natureza pode também transformar as
relações humanas. O livro foi adaptado para o cinema, recebendo o Oscar
de melhor curta-metragem de animação em 1988.
Certa vez, caminhando sozinho pelo sul da França, um rapaz se vê em
maus lençóis: a paisagem é desértica, o vento ruge como uma fera, os
vilarejos estão em ruínas e não se encontra água em nenhum lugar. Quando
já vai perdendo a esperança, vê ao longe uma silhueta, que talvez seja
um tronco isolado — mas é, na verdade, um velho pastor de ovelhas, que
lhe dá água e abrigo. Só que esse não é um pastor como os outros. Quieto
e calado, Elzéard Bouffier dedica-se mais que tudo a semear árvores:
carvalhos, bordos, faias, bétulas e salgueiros, que planta em toda
parte. Os anos passam, os encontros se repetem, a região vai cobrando
outros ares e vida nova, sem que ninguém saiba como se produziu tamanha
transformação — ninguém, a não ser os leitores desta fábula inspiradora
de Jean Giono.
Sobre o autor:
Jean Giono nasceu em 1895 na cidadezinha de Manosque, na Provença.
Abandonou os estudos em 1911 para trabalhar num banco. Em 1915 foi
convocado para lutar na infantaria francesa. Após o fim da Primeira
Guerra, casou-se com Élise Maurin e começou a escrever. Em 1929 Giono
publicou o romance Colline, cujo êxito lhe deu a oportunidade
de dedicar-se integralmente à literatura. Ao longo da década de 1930,
publicou diversos romances, como Que ma joie demeure (1935),
além de ensaios contra o novo conflito que se aproximava. Durante a
ocupação alemã e no pós-guerra o autor passou por tempos difíceis, mas
conseguiu trabalhar em dois grandes ciclos de romances: as Crônicas romanescas, entre as quais se destacam Un roi sans divertissement (1947), Les Âmes fortes (1950) e Le Moulin de Pologne (1952); e a série em torno do per
sonagem Angelo Pardi, que lhe valeu grande sucesso com Le Hussard sur le toit (1951) e Le Bonheur fou (1957). Em seus últimos anos de vida explorou também outros gêneros, como no ensaio histórico Le Désastre de Pavie (1962). Faleceu em 1970, em Manosque. Escrito em 1953, O homem que plantava árvores esperou
até 1980 para ter sua primeira edição em livro na França; e em 1988 uma
adaptação da obra dirigida por Frédéric Back ganhou o Oscar de melhor
curta de animação.
Sobre o ilustrador:
Nascido em São Paulo em 1974, Daniel Bueno é ilustrador e quadrinista.
Em 2001, formou-se em arquitetura na Universidade de São Paulo, onde
também realizou um mestrado sobre Saul Steinberg (2007). Já colaborou
com mais de cinquenta revistas e jornais, além de ter ilustrado diversos
livros. Premiado no Brasil e no exterior, recebeu o Jabuti pelas
ilustrações para Um garoto chamado Rorbeto, de Gabriel o Pensador (2006), O melhor time do mundo, de Jorge Viveiros de Castro (2006) e A janela de esquina do meu primo,
de E. T. A. Hoffmann (2010), que também mereceu uma menção honrosa na
Feira do Livro Infantil de Bolonha. Desde 2016 é professor da Escola
Britânica de Artes Criativas, em São Paulo.
Sobre os tradutores:
Cecília Ciscato nasceu em São Paulo, em 1977. Graduada em Letras pela
Universidade de São Paulo (2011), é também mestre em língua francesa
pela Université Paris Descartes (2015). Traduziu para o português o Discurso do prêmio Nobel de literatura 2014, de Patrick Modiano (2015), e, para a coleção Fábula, Que emoção! Que emoção? (2016), de Georges Didi-Huberman, e Outras naturezas, outras culturas, de Philippe Descola (2016).
Samuel Titan Jr. nasceu em Belém, em 1970. Estudou filosofia na
Universidade de São Paulo, onde leciona Teoria Literária e Literatura
Comparada desde 2005. Editor e tradutor, organizou com Davi Arrigucci
Jr. uma antologia de Erich Auerbach (Ensaios de literatura ocidental, 2007) e assinou versões para o português de autores como Adolfo Bioy Casares (A invenção de Morel, 2006), Gustave Flaubert (Três contos, 2004, em colaboração com Milton Hatoum), Voltaire (Cândido ou o otimismo, 2013) e Prosper Mérimée (Carmen, 2015).
quarta-feira, 4 de abril de 2018
[Lançamento Editora 34] VIAGEM SENTIMENTAL, de Viktor Chklóvski, último livro da série Narrativas da Revolução
Viagem sentimental
Viktor Chklóvski
Tradução e notas de Cecília Rosas
Posfácio de Galin Tihanov
Coleção Leste – Narrativas da Revolução | 408 p. | 14 x 21 cm | 492g | ISBN 978-85-7326-689-4| R$ 67,00
Viktor Chklóvski (1893-1984), o grande crítico formalista russo, autor de Sobre a teoria da prosa,
foi instrutor de blindados, comissário do exército e conspirador
antibolchevique durante a Primeira Guerra Mundial, as revoluções de
Fevereiro e Outubro de 1917 e a guerra civil que se seguiu em seu país. Viagem sentimental,
publicado em 1923, é seu impressionante testemunho sobre este período
caótico e violento, escrito com uma prosa peculiar, que mescla ironia e
lirismo, abordando desde os fronts de guerra até a vida literária no
início da república soviética.
Viagem sentimental é o título que o crítico russo Viktor
Chklóvski emprestou de Sterne para dar nome às suas memórias dos
turbulentos anos de 1917 a 1922. Escrito durante a guerra civil russa, o
livro trata da Primeira Guerra Mundial, da revolução de 1917 e da vida
literária no início da república soviética. O autor, hoje reconhecido
como o fundador da escola formalista de crítica literária, foi também
instrutor de direção de carros blindados, comissário de guerra,
conspirador antibolchevique e especialista em bombas. Para narrar essa
vida que mais parece um romance de aventuras, a prosa digressiva e
coloquial de Viagem sentimental está sempre no limite entre a memória e a ficção, entre o testemunho lacônico e as explosões de lirismo.
Primeira tradução em português da obra, esta edição inclui ainda um
ensaio inédito de Galin Tihanov, professor da Universidade de Londres,
que esclarece os vínculos entre a teoria formalista e a prosa modernista
de Chklóvski. Este livro faz parte da série Narrativas da Revolução,
dirigida por Bruno Barretto Gomide, da Universidade de São Paulo.
Publicadas na década de 1920, as cinco obras de ficção escolhidas
dialogam diretamente com a Revolução Russa de 1917 e dão prova da
diversidade de caminhos estéticos e da extraordinária força inventiva do
período.
Sobre o autor
Viktor Boríssovitch Chklóvski nasceu em 1893 em São Petersburgo. Em
1912 ingressou na Faculdade de História e Filologia, mas, com a eclosão
da guerra, juntou-se ao exército como voluntário e passou a servir como
instrutor na divisão de carros blindados. Nesse período conturbado
formou a OPOIAZ, grupo pioneiro na análise formal da literatura, e
publicou textos seminais como “A arte como procedimento”. Teve
participação ativa na Revolução de Fevereiro e no recém-criado soviete
de Petrogrado, e viajou ao front ucraniano e à Pérsia como comissário de
guerra do Governo Provisório. Após a Revolução de Outubro, teve
envolvimento na conspiração antibolchevique encabeçada pelo Partido
Socialista Revolucionário e teve que refugiar-se em Sarátov, onde
dedicou-se aos ensaios que comporiam
seu livro Sobre a teoria da prosa, publicado em 1925.
Em 1919 volta a Petrogrado e leciona no Instituto de História da Arte
e nos estúdios do projeto Literatura Mundial, liderado por Górki, além
de compilar suas memórias da guerra e da revolução que vão integrar o
livro Viagem sentimental (1923). Após um breve exílio em Berlim, torna-se um dos líderes do grupo que editava o famoso periódico LEF.
Nas décadas que se seguiram continuou a escrever crítica e teoria
literária, trabalhando também como editor de filmes e roteirista para o
Comitê Estatal de Cinematografia, além de publicar os livros Sobre Maiakóvski (1940) e Lev Tolstói (1963). Morreu em Moscou, em 1984, aos 91 anos de idade.
Sobre a tradutora
Cecília Rosas é mestre e doutoranda em Literatura e Cultura Russa pela
FFLCH-USP, com dissertação de mestrado sobre Púchkin. Deste autor
traduziu os volumes Noites egípcias e outros contos (2010) e O conto maravilhoso do tsar Saltan (2013), além de organizar e traduzir, de Dostoiévski, a coletânea O ladrão honesto e outros contos (2013). Mais recentemente foram lançadas suas traduções dos livros A margem esquerda, segundo volume dos Contos de Kolimá de Varlam Chalámov (2016), e A guerra não tem rosto de mulher, da Prêmio Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch (2016).
Texto de orelha
Viktor Chklóvski (1893-1984) viveu em tempos de fanatismo e
perseguição. O autor ficou célebre como um dos fundadores da teoria
literária do século XX. “A arte não é a sombra de uma coisa”, escreveu
ele, em sua Teoria da prosa. “Ela é a própria coisa.”
Publicado em 1923, Viagem sentimental é uma coisa
desnorteante. Um livro de memórias escrito por um jovem. O qual
perambula como comissário do exército pela Rússia e até a Pérsia, na
Ucrânia e através do Cáucaso, em meio ao caos e à violência da Primeira
Guerra Mundial, das revoluções de fevereiro e outubro de 1917 e da
guerra civil que se sucedeu.
O título é escamoteado da obra de um avô do romance moderno, Laurence Sterne, que em 1768 publicou Uma viagem sentimental pela França e a Itália.
A alusão irônica a esse modelo inglês já indica de saída que será
adotado um ponto de vista avesso a qualquer sentimentalismo. Mas, ao
sarcasmo do século XVIII, Chklóvski acrescenta a crueza do XX: “Tinha o
tronco de uma pessoa grande”, escreve, sobre um cadáver feito com
pedaços de gente morta por uma explosão no front. “Foi posta nele uma
cabeça pequena, e sobre o peito havia dois braços pequenos, desiguais,
ambos esquerdos.”
A Viagem sentimental de Chklóvski também é formada com a
recombinação arbitrária de fragmentos de gêneros literários diferentes —
o conto, o depoimento, o relato de viagem, a reportagem. São disjecta membra: os membros espalhados da tradição e da Belle Époque, atropelados pela aceleração dos tempos.
Trata-se agora de juntar humor e horror, abandonando qualquer
parâmetro possível de bom gosto ou sobriedade. Embaralhado com a
constante sabotagem das suas expectativas, o leitor se vê tão atônito
quanto o narrador. O mosaico tem um resultado romanesco, e se aproxima
do que o próprio Chklóvski escreveu sobre o “romance em paródia” de
Sterne — mas com uma urgência até então desconhecida.
“Cidadãos, parem de matar!”, é o apelo que se ouve no livro quando o
assunto já é a violência contra poetas e intelectuais de uma “geração
que esbanjou seus poetas” (no dizer de Roman Jakobson). Linchamentos,
fuzilamentos e execuções sumárias são o pão-de-cada-dia dessa trajetória
em que muitas vezes falta o pão de farinha comum. O anti-herói então se
lembra da resposta do Arlequim, quando perguntam se prefere ser
enforcado ou esquartejado: “Prefiro sopa”.
Como quem joga uma bota velha na fervura de batatas mirradas,
Chklóvski engrossa o caldo da literatura e inventa uma espécie de
memorialismo de vanguarda. Mestre da frase curta e mordaz, da colagem
abrupta e da digressão sistemática, ele testa em Viagem sentimental todos os recursos que já tinha examinado em sua obra teórica.
Nos anos imediatamente anteriores ao período coberto neste livro, o
provocativo teórico do “estranhamento” (ou “desfamiliarização”) não
podia adivinhar o mundo estranho que estava por vir. Radical, ele negava
o historicismo, repelia as explicações biográficas. Logo a história
viria buscá-lo, como se fosse um agente da KGB, para incrementar sua
própria biografia. O que fazer com o “recurso técnico” do estranhamento
quando a realidade de repente se torna, ela própria, tão pouco familiar?
Nesta Viagem sentimental ele tenta, entre outras coisas, esboçar uma resposta.
Sérgio Alcides
quarta-feira, 21 de março de 2018
[Lançamento Editora 34] NUVENS, único livro de poemas de Hilda Machado
Nuvens
Hilda Machado
Coleção Poesia | 96 p. | 14 x 21 cm | 137g |
Quantos poetas passam pela vida sem jamais publicar um livro? Quantos poemas escritos nunca chegam aos leitores? Hilda Machado, pesquisadora e cineasta nascida no Rio de Janeiro em 1951 e falecida em 2007, foi professora na Universidade Federal Fluminense, com passagens por universidades estrangeiras, e diretora premiada em festivais de cinema nacionais. Paralelamente, desenvolveu um trabalho poético de dicção muito pessoal, entre o melancólico e o autoirônico, de teor fortemente visual e que parece assumir a montagem cinematográfica como procedimento poético por excelência — “Discreta voyeuse/ o sofá combinando com o tom das exegeses/ a polidez dos móveis, avencas, decassílabos, filmes russos/ perífrases sobre paninhos de crochê/ e em vez de carne poemas no congelador”.
Em vida, Hilda Machado publicou apenas dois poemas. Deixou, porém, além de manuscritos esparsos, este Nuvens, que ela mesma organizou e chegou a registrar na Biblioteca Nacional, claro sinal de que considerava publicá-lo um dia. É o que agora se realiza, graças à colaboração de Angela Machado, irmã da autora, e ao empenho do poeta Ricardo Domeneck, que assina o texto de apresentação do volume.
Sobre a autora_Hilda Machado nasceu no Rio de Janeiro em 1951. Fez mestrado em Artes pela USP (1987), doutorado em História Social pela UFRJ (2001), e foi professora na UFF a partir de 2002. Estudou direção de cinema na Escuela Internacional de Cine y Televisión em Cuba (1989) e atuou como pesquisadora em várias universidades e instituições no Brasil e no exterior, como a New York University (1993) e a University of London (1998-1999). Em 1987 recebeu o prêmio de melhor direção nos festivais de cinema de Gramado, Recife e Rio de Janeiro pelo curta-metragem Joílson marcou, com trilha sonora de Itamar Assumpção. Além de vários artigos e ensaios sobre cinema, publicou em 2002 o livro Laurinda Santos Lobo: artistas, mecenas e outros marginais em Santa Teresa (2002). O livro de poemas Nuvens, organizado pela autora e datado de julho de 1997, permaneceu inédito até agora. Morreu em São Paulo em 2007.
Texto de orelha_
Por Flora Süssekind
Este livro é precioso. Não só pela reunião de textos que introduz na literatura brasileira contemporânea uma poeta cuja produção, em vida, só chegou a pouquíssimos leitores, mas enquanto registro do impacto que um poema pode ter, que o diálogo silencioso entre dois poetas pode ter. Neste caso, o impacto de um poema de Hilda Machado — “Miscasting” — sobre outro poeta — Ricardo Domeneck, que reconheceu, desde a sua primeira leitura, a singularidade dessa voz, o que o levaria a se perguntar quem seria essa escritora (que infelizmente descobrimos tardiamente) e, em seguida, a retraçar a sua trajetória e procurar novos textos, reunidos aqui, depois de alguns anos de busca.
Como Domeneck, também não conheci Hilda Machado. Não que algum tipo de intimidade prévia se imponha como complemento afetivo necessário à leitura de sua poesia. Nem que, por outro lado, em se tratando de contemporâneos, e, no meu caso, vivendo na mesma cidade, isso não pudesse ter acontecido. Mas não aconteceu. Nunca a vi no Bloco das Carmelitas, em Santa Teresa, ou esbarrei com ela pelo Rio, como contaria a pesquisadora Isabel Lustosa, em crônica de 2010, comentando o seu espanto ao saber da morte precoce e voluntária da poeta e professora de cinema da UFF, que acontecera três anos antes.
Quanto aos escritos de Hilda, além do livro sobre Laurinda Santos Lobo (referência para os estudos sobre os salões artísticos no Brasil do começo do século XX), de sua produção como pesquisadora cinematográfica, e dos roteiros de seus dois curtas-metragens, até hoje só se conheciam mesmo os poucos poemas divulgados na primeira década dos anos 2000 pelas revistas Inimigo Rumor e Modo de Usar. A qualidade e o pathos satírico-meditativo desses textos fizeram, no entanto, supor e desejar a existência de outros com potencial semelhante e impuseram a busca por novos originais, o que, em 2017, resultaria na localização, com ajuda da família da autora, de manuscritos inéditos, entre os quais se encontrava este Nuvens, registrado pela poeta junto à Biblioteca Nacional em 1997.
Para além das três escritoras (Adélia Prado, Hilda Hilst e Orides Fontela) explicitamente referidas por ela em “Poeta” (“que a minha inveja é só de mulher e absinto/ pra eu beber em cálice”), é intrigante observar como se reconfiguram, neste corpus, questões encaminhadas de modo próprio por poetas de sua geração, como a da dicção falsamente íntima de Ana Cristina Cesar (cujos “augustos”, aliás, parecem ecoar nos “ricardos” de Hilda Machado), como a do humor resultante, no caso da poesia de Lu Menezes, de elaboradíssima tensão entre movimento reflexivo e imagem sonora e visual, como a da relação entre sujeito e paisagem, trabalhada em suas contradições por Angela Melim, por exemplo. Porque há em Hilda Machado essas dimensões e — via drama do eu, humor dis juntivo e presença do mundo — complexifica-se a dicção, ao mesmo tempo que se sublinha autoironicamente (“sutiã e cinta-liga”, “renda negra e chicote”, “unha pintada”, “garra”) o gênero dessa voz.
A um primeiro olhar, alguns dos novos originais contrastam um pouco com os já conhecidos, sobretudo a série de notações poéticas breves sobre lugares, atmosferas e diferentes formações de nuvens, nas quais a concisão trava, em parte, a expansão imagética e a autodramatização irônica dos poemas mais longos. No entanto esses exercícios de observação do céu dialogam (sem muito alarde) com os outros textos, mais expansivos, e por vezes acabam se dramatizando, não sem humor, em “nuvens erráticas devorando rivais” e “bacantes drapejadas de vapor” despedaçando Orfeu (e a poeta revisitando, assim, a imagem-guia do seu curta-metragem de 1973, Como era gostoso o meu burguês). O céu chega mesmo a ser belamente deslocado para o chão da sala em “Um homem no chão da minha sala”, e a paisagem a se transformar em confidente muda — “ouviu, montanha?”, “palmeira, ouviu?”. Nem sempre pesado e baixo, como o do spleen baudelairiano, e no entanto a rigor em ressonância com ele, seria, não à toa, ao céu que se dirigiriam, aliás, as perguntas finais de “Miscasting”, espécie de poema-síntese de Hilda: “oh céu brilhante do exílio/ que terra/ que tribo/ produziu o Teatrinho Troll colado à minha boca/ onde é que fica essa tomada/ onde desliga”.
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
terça-feira, 30 de janeiro de 2018
quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
[03.fev] Fabrício Corsaletti lança novo livro de crônicas, PERAMBULE
Perambule
Fabrício Corsaletti
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
[06.12] Zuza Homem de Mello fala sobre seu novo livro, COPACABANA, na Livraria Cultura Conjunto Nacional em São Paulo


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