A ralé brasileira - quem é e como vive
de Jessé Souza
André Grillo et al. (colaboradores)
Coleção: Humanitas
2011. 483 p
Já
faz um certo tempo que a universidade não é chamada as falas para
colocarem sobre as suas toalhas de linho a questão da pobreza,
ignorãncia, indolência e que raios de ralé é essa a tal brasileira, tão
cordial...
Para Jessé Souza, o problema da ralé é “
a questão mais importante no Brasil moderno” e está associado a outros problemas como a
segurança pública, o trabalho informal, o racismo e o preconceito regional. Apesar da importância social que tem, “
a desigualdade não é nem percebida enquanto tal. Nós a naturalizamos”, na avaliação do sociólogo. Ele, no entanto, acredita que esse pensamento não é algo racional, mas tem uma função mais
eficiente justamente por ser “pré-reflexivo”.
Segundo
o autor em recentes declarações - A redução das classes sociais ao seu
substrato apenas econômico, seja à renda ou ao lugar na produção, erro
comum tanto ao liberalismo dominante quanto ao marxismo enrijecido
dominado, implica “falar” de classes sociais sem que nada se compreenda
de sua importância. Percebem-se apenas os aspectos “materiais” como
dinheiro ou transmissão de propriedade, e se “esquece” da transmissão de
“valores imateriais”, como as formas específicas de agir e reagir no
mundo, os quais, esses sim, constituem os indivíduos como indivíduos de
classe.
São os valores e as disposições para o comportamento
individual incutidos desde a mais tenra infância na socialização
familiar típica de cada classe que criam os privilégios positivos de um
lado e negativos de outro. Como regra, as virtudes são todas do
“espírito”, como a inteligência, o cálculo, a razão distanciada, ou até o
“expressivismo blasé”; já os vícios, por outro lado, são todos ligados
ao “corpo”, como a sexualidade sem controle, os afetos, a emotividade, a
força muscular, etc. As classes superiores “in-corporam” — literalmente
tornam “corpo”, automático, como quem anda ou respira — as virtudes
espirituais como a capacidade de concentração, por exemplo, decisiva no
sucesso escolar. As classes inferiores “in-corporam” as virtudes
ambíguas do corpo, assim como todos os outros dominados como as mulheres
— por oposição ao homem — e o negro — por oposição ao branco.
Em
todas as dimensões da competição social por recursos escassos de todo
tipo, no entanto, são as virtudes do espírito aquelas que recebem bons
salários, prestígio e reconhecimento social. As classes do “corpo”
tendem a ser literalmente “animalizadas”, podendo ser usadas e
instrumentalizadas e até mortas por policiais sem que ninguém se comova
com isso. O fato é que existem sociedades — que aprenderam a enfrentar
seus desafios de frente — que reduziram o percentual de classes
excluídas e animalizadas a um mínimo. Penso aqui nas principais
democracias europeias. Nós escolhemos nos indignar moralmente com falsos
conflitos e negar patologicamente qualquer responsabilidade social pela
miséria econômica, existencial e política de parte considerável de
nossa população.
O LIVRO
Fala-se em todos os jornais que a
desigualdade brasileira está desaparecendo e que o nosso único problema é
a corrupção da política. As duas teses não poderiam ser mais falsas e
ao mesmo tempo não poderiam estar mais relacionadas. Elas formam o
núcleo mesmo da “violência simbólica” – aquele tipo de violência que não
“aparece” como violência – que torna possível a naturalização e a
reprodução infinita de uma desigualdade social profunda como a
brasileira.
LANÇAMENTOS DA