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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

NATAL (FINAL)

As canções e os autos

Quando os anjos anunciaram o nascimento do Menino aos pastores, retumbou nos ares o primeiro cântico de Natal: "Glória a Deus nos céus e paz na terra aos homens que amam o Senhor,” ou ainda “ Gloria a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”. É atribuído ao Papa Telésforo no século II o hino do Glória in Excelsis, mas a mais antiga canção de Natal é atribuída a São Hilário de Poitiers no século IV: Jesus refulsit omnium.Foram compostas muitas canções de Natal, que nem sempre tinham inspiração espiritual; eram muitas vezes composições folclóricas, e no século VII os dirigentes da Igreja proibiram terminantemente seu uso. No século XIII, o poeta Jacopone Benedetto compôs o hino "Averex angelorum" por esta época aparecem os "Carols" na Inglaterra, na Espanha surgiram os "Villancicos" e na França os seus "Cantiques de Noel". Na Alemanha os cânticos eram chamados de "Weihnachten Lieder" e na Rússia e Polônia, "Kolendas".Os cânticos natalinos, em destaque na Espanha, eram canções simples, entoadas por lavradores e pastores, (villanos) e dai seu nome de villancicos. Talvez o mais popular dos cânticos que o mundo conhece é o Noite de Paz, porque foi traduzido a numerosos idiomas, e interpretados por grandes solistas e coros populares.É de 1818, composto por José Mohr pároco do povoado de Hallein, nos Alpes austríacos, em parceria com o organista Gruber que a popularizou.Uma das versões, mais conhecida em Portugal é a seguinte :“Noite de paz, noite de amor!tudo dorme ao derredor.Somente velam olhando a facede seu filho em angélica pazJosé e Maria em Belém!”
No Brasil os cânticos de Natal tem grande destaque, em especial os produzidos pelos artistas populares nordestinos , porém cabe a um mulato mineiro a primazia de ter composto um Auto de Natal da forma clássica tradicional.

Já nas primeiras décadas de 1700, a sociedade mineira se expressa de modo significativo por meio da música religiosa e profana. Os rituais litúrgicos e as festas populares eram valorizados pela música, que aos poucos tomou forma e ganhou proporções originais, revelando uma classe singular de músicos, em sua maioria mulatos. Ignácio Parreiras Neves foi um desses mulatos era o compositor, cantor e regente, trabalhando nessa função principalmente para o Senado da Câmara e para as irmandades de São José dos Homens Pardos e de Nossa Senhora das Mercês e Perdões. Parte considerável de sua produção musical está perdida. Do que restou, destacam-se Credo, Ladainha e Oratória ao Menino Deus para a Noite de Natal (1789), considerado o único auto de natal em língua portuguesa escrito de forma tradicional dos autos litúrgicos. Parreiras Neves nasceu em Vila Rica em 1730, onde faleceu entre 1792 e 1794.

Para Câmara Cascudo os autos são formas teatrais de enredo popular com bailados e cantos, que podem tratar de assuntos religiosos e profanos, representadas no ciclo das festas de natal ( dezembro e janeiro). Lapinhas, pastoris, fandangos ou marujadas e ainda cheganças ou cheganças de mouro, bumba-meu-boi, boi, boi calemba, boi de reis, congadas ou congos, etc. Desde o século XVI os padres jesuítas usaram o auto religioso, aproveitando também figuras clássicas e entidades indígenas, como poderoso elemento de catequese.
Os autos de Natal Brasileiros foram muitos e dos mais surpreendentes autores. Adélia Prado é uma dessas autoras. Depois de estrear com Soltem os Cachorros, abandona o magistério, após 24 anos de trabalho. Lecionou Educação Religiosa, Moral e Cívica, Filosofia da Educação, Relações Humanas e Introdução à Filosofia. Sua peça, O Clarão, é um auto de Natal escrito em parceria com Lázaro Barreto, é encenada em Divinópolis. Sobre esse texto, Adélia, sempre polêmica fala -"O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta”. Em 1980 ela dirige o grupo teatral amador Cara e Coragem na montagem de O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.

Segundo Maria Chaves em artigo recente , “entre uma comemoração e outra, eis que surgem com toda força os tradicionais autos natalinos para interpretar o emocionante episódio bíblico.Seja através de elementos da cultura popular, figuras sacras ou profanas, a tradição de colocar em cena uma homenagem ao 25 de dezembro se mantém firme e forte - ao menos é o que se percebe no Estado de Pernambuco. O Aurélio diz que um auto se trata de um ato público, uma solenidade, de um registro escrito e autenticado de qualquer ato. É um gênero dramático originário da Idade Média, com personagens em geral alegóricos, como os pecados, as virtudes, os santos, podendo também comportar elementos cômicos ou jocosos”. Destaca então o Noite Feliz, da Sociedade Teatral de Fazenda Nova.

Para Théo Brandão a festa de natal sempre teve um aspecto de festa de feira, que durava das vésperas até 6 de janeiro. “Oriundos em sua maioria da península ou vindos até nós do continente europeu através de formas portuguesas, tomaram aqui uma feição particular e deram, de outra parte, motivo para a criação, sob influências dos negros da terra ou da África, de novas formas, diversas nuances e de novos autos e diversões.”

É clássica a divisão de tais autos, folguedos, danças dramáticas, folias, folganças, brinquedos, que tantos são os nomes com que se tem os nomeado no correr dos tempos, desde Sílvio Romero, que os classificou em seu Cantos Populares do Brasil em Reisados, Cheganças e Pastoris.
Para a Professora Eneida de Castro, Morte e Vida Severina - Auto de Natal Pernambucano de João Cabral de Melo Neto é o mais característico poema com inspiração na Natividade. “Morte e Vida Severina apresenta a viagem de um sertanejo que procura melhores condições de sobrevivência em outras paragens.

Outro Auto de Natal importante é a teatralização do poema Meu Caro Jumento, de Patativa do Assaré que em sua linguagem simples, falando do jumento, que carregou Maria e Jesus na fuga para o Egito e de como ele, da mesma forma que o trabalhador, é maltratado e abandonado por aqueles que o exploram e deveriam amá-lo. Patativa cria em seu poema, um verdadeiro Auto de Natal, sintetizando todos os conteúdos da festa natalina, permitindo ao grupo falar do amor, da generosidade, da esperança e do renascimento que nela se fazem presentes.

Em 1953 tivemos outra estréia importante que tinha o burro como personagem. No pequeno teatro do Patronato da Gávea, O Tablado, a peça "O boi e o burro a caminho de Belém", escrita e dirigida pela jovem Maria Clara Machado. Fundadora do grupo ao lado de seu pai, o escritor mineiro Aníbal Machado e de um grupo de intelectuais amigos ela já vinha desenvolvendo, como assistente social, um trabalho de teatro de bonecos, no próprio Patronato, desde os fins dos anos quarenta.

O Cordel também cometeu diversos autos de Natal , mas destacamos este delicioso Auto de Natal de autoria de Valdez, natural de João Pessoa , com o qual encerramos este ensaio:

Foi de Bom-I-Zú da Lapa
Chamado aquele lugar,
Sugestão de um vaqueiro
Que acabara de apear.
O povo foi-se chegando...
Todo mundo veio olhar.
Depois chegaram os magos,
No meio um preto forte...
Era Zumbi dos Palmares
De braço com a consorte.
E tinha um mago índio
Rio-grandense-do-norte.
Desses eventos distantes,
De registro oficial,
Fez-se auto nordestino,
Fez-se auto sem igual.
Louva Jesus Salvador
E a graça do Natal

sábado, 8 de dezembro de 2007

NATAL (continuação)

por Myrtha Ratis e Eduardo Cruz



A ESTRELA

Ainda seguindo o evangelho de Mateus lemos que os magos afirmam ter visto uma estrela e que ela os motivou a ir a Jerusalém em busca do rei dos judeus. A estrela, então, os guia até Belém. Desde os tempos do astrônomo Kleper, no século XVII foram feitos estudos astronômicos sobre os fenômenos celestes e foram propostas três teorias, do cometa, de uma nova estrela (uma super-nova) e uma conjunção de planetas. Mas isso não importa, o certo é que a estrela tem outras simbologias. A arvore de Natal é geralmente encimada por uma estrela de cinco pontas. Trata-se, dentro da tradição judaica da cabala, o símbolo mágico e cabalístico do pentagrama, do homem cósmico, do adan-cadmon, e representa o domínio dos cinco elementos.E é ainda a estrela de David.

A ÁRVORE DE NATAL

Segundo Luis da Câmara Cascudo em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, a Árvore de Natal é o “álamo, abeto, pinheiro, cortado em maio e replantado na praça da aldeia, símbolo votivo do espírito fecundador da vegetação assegurando pelas homenagens recebidas a continuidade das colheitas”. A arvore veio para o Brasil como tradição natalina no começo do século XX. A primeira exibida na cidade de Natal em 1909.
A origem da árvore de Natal parece vir dos tempos de São Bonifácio, o qual converteu ao cristianismo os alemães no Século VIl, cortando a azinheira sagrada de Geismar, em Hesse, a fim de acabar com o culto as árvores. Porém, como maioria dos símbolos do Natal ela tem sua origem nos druidas, os sacerdotes dos celtas. O termo druida significa “carvalho”, mas também mago e encantamento. Os druídas honravam a seus deuses atando as ramas de maçãs douradas e outras oferendas.
No mundo pagão se encontram várias tradições: entre os germânicos, o deus Odin tinha permanecido pendurado nos pés de um pinheiro no solstício de inverno. Virgílio, nas Geórgicas, menciona o uso romano de pendurar em pinheiros máscaras de Baco como um meio de assegurar a fertilidade.
No Antigo Testamento a árvore tem um significado especial: sob as árvores sagradas se celebravam reuniões, julgamentos, assembléias do povo (1Sam 14,2;22,6).
Desde os tempos proféticos a árvore ocupa um lugar de privilégio: "Virá a ti o orgulho do Líbano, com ele o cipreste e o abeto e o pino, para adornar o lugar de meu santuário e enobrecer minha mesa." (Is. 60,13). Também a figura do rebento do tronco de Jessé a empregam os profetas no anúncio do Messias (Is 11,1).
Quando a arvore se tornou mais popular como elemento de decoração de Natal surgiram muitas lendas para explicar a sua origem. Uma nos conta que na noite em que Cristo nasceu todas as árvores de um bosque vizinho floresceram e deram frutos apesar do gelo e da neve. Entre os ingleses se narra que tendo chegado José de Arimatéia a Wyralhill, plantou ali seu báculo no solo que se converteu em uma árvore que florescia no inverno; há aqueles que o identificam com o espinho de Glastonbury, que floresce no Natal. Algumas das coisas que apresentamos aqui pode ser conferido no extenso romance de Marion Zimmer Bradley intitulado As Brumas de Avalon.
Em diversas partes da Europa se cortavam ramas de espinho e de cereja e se colocavam em lugares abrigados para que florescessem no Natal. Algumas famílias traziam à suas casas árvores inteiras para competir com seus vizinhos sobre os mais belos enfeites.
Este costume é, para alguns, a origem das atuais árvores de Natal, pois em um principado na Alemanha se decoravam as árvores com maçãs, fitas e flores de papel, até que as bolinhas de vidro tomaram lugar destes adornos. No século XVI, na Alemanha, se adornou a árvore de Natal como hoje a conhecemos. A “Árvore de Natal”, conhecida em algumas regiões da Europa como a “Árvore de Cristo”, desempenha papel importante na data comemorativa do nascimento de Nosso Senhor.
Podemos ainda dizer que os relatos mais antigos que se conhecem acerca da Árvore de Natal, como tal datam de meados do século XVII, e são provenientes da Alsácia, província francesa. Descrições de florescimentos de árvores no dia do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo levaram os cristãos da antiga Europa a ornamentar suas casas com pinheiros no dia do Natal, única árvore que nas imensidões da neve permanece verde.
Um dos mais belos contos populares vem da região da Estíria (Áustria), no século dezenove e seu autor é P. Rosegger, e narra o alumbramento da família ao ver uma pequena árvore enfeitada sobre a mesa do que seria a ceia de uma família burguesa que já havia praticado rituais de incensário. O texto passou a ser conhecido como a Árvore de Cristo: presente do Menino Jesus.

OS ENFEITES DE NATAL

As velas usadas no Natal, poderiam ser a simplificação das antigas fogueiras. São bengalas e bolas de cristal que enfeitam as árvores de Natal, as coroas nas portas das casas, nas vitrines dos comércios.Consta que um vendedor de doces quis fabricar algo especial para o Natal e pensou em um pequeno bastão de menta que recordasse o cajado dos pastores que ocupam um lugar preferencial entre os visitantes do presépio. Daí surge a, rara no Brasil mas comum na Europa e EUA , a bengala doce. Depois de algum tempo os doces de menta foram substituídos por bastões de plástico e também as bolas de cristal e depois vidro.
Os romanos tinham como tradição oferecer a sua coroa a alguém. A pessoa que a recebia, como forma de agradecimento, pendurava-a na porta principal da sua casa. Hoje, as pessoas colocam coroas verdes ou douradas na porta das suas casas como sinal da proximidade do Natal. Também o costume de pendurar nas portas os enfeites de vegetais podem ter a ver com a tradição celta de pendurar visco sobre a porta, que era considerado extremamente mágico e conferia poderes a quem o usasse na data do solstício.

As cores do natal

Talvez as cores do Natal pudessem ser conhecidas como uma escolha de cores que queria reunir o branco da neve que cobre os campos do hemisfério norte e o vermelho do sangue que Jesus derramaria por todos.
Porém essa definição é insuficiente, Na verdade considera-se as cores de Natal o vermelho e o verde, presentes por exemplo nas guirlandas e enfeites de porta (coroas) e tem sua origem na dualidade delas na natureza, arvore e frutos.




Missa do Galo
Era costume entre os católicos ir à celebração da missa antes da ceia. Era o rito religioso que purificava antes da comida, sempre uma libação. A tradicional Missa do Galo cristã, muito embora seja a maior expressão litúrgica do catolicismo em especial nas tradições ritualísticas de Roma, Portugal e Brasil também pode ser caracterizada pela tradição da cerimônia pagã. “O galo é um animal sagrado para os ciganos que são considerados um ramo perdido dos atlantes e também o era para os druidas/celtas que também o são. O galo é quem diz: “Eu sou aquele que canta o raiar de um novo dia, de uma nova esperança, de uma nova vida!”, como uma alusão ao Sol como deus e origem da vida.”Dizem que o galo cantou á meia noite , no nascimento de Cristo, contrariando a sua natureza.
Cartões de boas festas
Bem antes de Jesus Cristo surgiram as mensagens de felicitações. Já era habito entre os romanos enviarem-se congratulações pelo Ano Novo, gravadas em tabletes de argila (tijolos) e, com a cristianização do Império Romano, esse costume permaneceu inalterado. O primeiro cartão de "Boas Festas" de que se tem noticia teria surgido em Londres no ano de 1834, na mesma época dos contos natalinos de Charles Dickens.
Dickens que brilhava com obras de gosto popular como As Aventurasdo Sr. Pickwick, Oliver Twist ou ainda as comoventes como Um grilo na Lareira, quando escreve a saga do Sr. Scrooge resgata o espírito do Natal. The Haunted man and the ghost bargain, é um clássico de Natal que foi filmado e representados milhares de vê zes dando origem inclusive a personagens de quadrinhos como o de Walt Disney , que ganhou no Brasil o nome de Tio Patinhas.
Mas voltando aos cartões, foi a falta de tempo de Henry Coyle, o director do British Museum de Londres, que originou a criação dos cartões natalinos. Sem tempo de escrever a mão a todos os seus familiares e amigos, Henry Coyle solicitou ao artista plastico John Callicot Housley que lhe elaborasse um cartão que servisse para enviar boas-festas a todos os seus patentes e amigos. O pintor pegou um pedaço de cartolina quadrada e dividiu-a em três partes. Ao centro desenhou uma família reunida a mesa, comemorando alegremente. No verso figuravam meninos pobres recebendo comida e roupas.E por fim podia-se ler a mensagem: A Merry Christmas and a Happy New Year to you ("Um alegre Natal e um feliz Ano Novo para você"). O significado em inglês da palavra Christmas é o mesmo que The Mass of Christ : "Missa de Cristo". Na ocasião foram impressos cem, e os que sobraram foram vendidos a um xelim cada. Até o costume se popularizar em 1851, os cartões eram todos litografados e pintados mão.


PAPAI NOEL OU PAI NATAL

A figura de Santa Klaus, é igual à árvore de Natal, resultou da combinação de várias lendas e tradições muito antigas. Certamente existe relação entre o Velho Noel ou Papai Natal (Portugal) atual e os Julenisse da Dinamarca e Noruega e os Tomte da Suécia, duendezinhos vestidos de vermelho com gorros pontiagudos e longas barbas brancas que repartem presentes montados em Jule-buken renas enfeitados com sinos e laços. Para outros existe uma relação na tradução do Velho Noel e a deusa norueguesa do lugar, Hertha ou Percht, que como Santa Claus entrava e saia pelas chaminés durante o solstício de inverno.
Essas figuras juntaram se com São Nicolau, bispo de Mira, região ao sudoeste da Ásia (Turquia), no século III que tinha especial cuidado com os meninos e necessitados. Ele que saía pelas noites percorrendo as cidades e levando presentes aos vizinhos e dando bons conselhos.O dia 6 de dezembro era a ele dedicado. Sua fama estendeu-se até os lapões e samoedos que habitavam na região das renas, e foi convertido no patrono de muitas cidades européias. Alemanha e Holanda foram os países onde mais rápido se estabeleceu a celebração de São Nicolau.
Os holandeses introduziram a tradição nos EUA e o fizeram patrono da ilha de Manhattan, a Nova Amsterdam, como chamaram os holandeses a Nova York quando a fundaram no século XVIII. A figura era do gordo sorridente de bochechas rosadas cativou e sua mitra episcopal logo se transformou em gorro, conservando a cor vermelha das vestimentas. Vieram depois o saco de brinquedos, e o cavalo cinzento se transformou em um trenó puxado por oito renas. O santo em holandês se chamava Sinter Klass, que para os meninos de língua inglesa logo mudou para Santa Claus e no Caribe o chamaram "Santicló" com acento francês. Na França o nome se transformou em Papá Noel, pela tradição de dar presentes no Natal (Noel).
Recorrendo a Câmara Cascudo vemos que o Papai Noel veio para o Brasil na segunda década do século XX e sua vulgarização acontece após 1930 sempre por obrigação formal nos festejos natalinos de iniciativa oficial e letrada, mas jamais popular. “Sem a mais remota e fortuita ligação com o ciclo de Natal católico da Espanha e Portugal, fontes do culto no Brasil, é de efeito mais hilariante que venerando na apreciação coletiva”.
A função do Papai Noel é o de distribuir presentes, porém temos as seguintes tradições: os trazidos São Nicolau, no dia 6 de dezembro ou entregues no dia 6 de janeiro, dia da Epifania, seguindo a tradição dos magos (tradição essa muito presente entre os descendentes de portugueses, em especial no sul do país). A outra tradição é a dos romanos que desejavam boa sorte durante as festas saturnais, no dia 25 de dezembro, dia que o mundo cristão celebra o Nascimento de Jesus. Algumas culturas dão os presentes na vigília de Natal, no dia 24 de dezembro. Cada tradição fala de um doador diferente: o Menino Jesus, Santa Claus, o Velho Noel, Befana ou Bufana (a figura feminina de Santa na ltália, que popularmente também pode ser conhecida como mulher de Papai Noel, esta tradição é muito encontrada entre os descentes de italianos no sul do país, em especial nas comunidades da cidade de São Paulo), os três magos, os gnomos de Natal, Kolyada (na Rússia), os Joulupukki ( na Finlândia).

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

O PRESÉPIO (cont...)



Lucas, o Evangelista escreve que “Deu à luz a seu filho primogênito. Envolveu-o em panos e colocou-o num presépio, porque não encontraram lugar na hospedaria.”. O presépio aparece também no texto do profeta lsaías (1,3) quando Deus se queixa de que "o boi conhece a seu amo e o asno conhece o presépio de seu senhor, mas Israel não me conhece, meu povo não se recorda de mim". E daí aparecem os dois animais míticos.
Mas foi São Francisco de Assis, por meio da representação da cena da natividade, (o presépio) que tentou de forma visual passar para os camponeses o mistério da noite de Natal. O costume difundiu-se por toda a Europa já não mais a representação sendo necessária para a instrução dos adultos na história do Natal, mas como uma decoração para a ocasião e para aproximar as crianças. Tínhamos então a representação do presépio como um estábulo, incluindo a mula, o boi, e com a visita dos magos e pastores. A representação se apoia em trechos bíblicos. Então podemos dizer que o presépio tem origem como a recriação do Natal na Terra Santa feita por São Francisco na sua aldeia, em 1224. A reprodução da cena da natividade precisou autorização papal, e passou a ser comum nos conventos, utilizando-se figuras de madeira pintadas.O costume foi-se expandido até às dimensões atuais. Conclusivamente o presépio é por fim um dos poucos símbolos de origem cristã utilizados no Natal. No Brasil os presépios tiveram grande aceitação popular e foram sendo absorvidos pela cultura popular e pelos artesãos. Hoje temos presépios de palha de milho, madeira e principalmente de barro.
Estudiosos afirmam que a arte cristã primitiva representa os magos do Novo Testamento com indumentária persa e chamar os magos de reis é fruto da imaginação e da devoção popular, pois seus turbantes nas cabeças pareciam coroas.E as representações dos magos diante o presépio aparecem muito antes que as dos pastores, com desenhos que datam do século IV nas catacumbas dos santos Pedro e Marcelino, acompanhando os magos.

domingo, 2 de dezembro de 2007

O NATAL ENTRE NÓS


Com certeza o Natal instituído como tradição pagã no Brasil chega através das imposições religiosas dos missionários católicos que chegaram ao Brasil juntamente com os portugueses. A Companhia de Jesus em sua missão catequista utilizava-se de todos os ritualismos possíveis para trazer a mensagem cristã ao índio e aos degredados, muitos deles cristãos novos. Depois vieram as influências espanholas, francesas e holandesas e mais recentemente, antes das mídias globalizantes, as tradições folclóricas de todos os imigrantes, em destaque os italianos.

Os portugueses também apresentam diversas facetas folclóricas nas comemorações natalinas e por isso mesmo, vamos observar a cada passo uma grande variedade de tendências para os ritos e formas de festejar o evento natalino.

É interessante transcrevermos aqui um trecho de texto escrito pelo padre Francisco Manuel Alves Abade de Baçal. 1934 -"Em algumas terras bragantinas começam as festas de natal no dia 13 de Dezembro com bailados acompanhados de constantes libações nineácias. Na noite de consoada (24 de Dezembro) esfusia o entusiasmo por toda a parte. A lareira é bem fornida de lume de que se guarda o melhor tição para acender pelo ano adiante quando surjam trovoadas para evitar que danifiquem os frutos. Vai-se depois à "missa do galo" e beija-se o Deus-menino. Seguem-se os festejos de Santo Estevão a 26 de Dezembro; de S.João, a 27; de S.Silvestre, a 31; do ano-novo, a 1 de Janeiro; e dos Reis a 6. Estes usos derivaram-se da Saturnália, celebrada pelos romanos durante 8 dias, começados a 17 de Dezembro convivendo fraternalmente ricos e pobres e sendo estes servidos à mesa por aqueles num ambiente de igualdade entre os homens, em memória da idade áurea simbolizada por Saturno. A esta folgança agregaram-se as Juvenais, festas celebradas pela gente moça no dia 24 de Dezembro, com lautas patuscadas, além de que no dia 21 do mesmo mês se sacrificava a Vênus, cujos cultos sempre tiveram muito de brincalhões. Estes costumes atingiram o apogeu na Idade Média com a "festa dos loucos" que era celebrada por clérigos de ordens menores, diáconos e sacerdotes, durante 12 dias, ou seja: desde o dia de Natal ao dia de Reis. As grandes fogueiras e a lenha estão relacionadas com os ritos de fogo, celebrados em tempos anteriores ao cristianismo, no solstício do inverno, como culto propriciatório ao Sol."

NATAL


NATAL
DAS ORIGENS À BRASILIDADE
Por Eduardo Cruz e Myrtha Ratis

Esta matéria sobre o Natal, após estafantes pesquisas poderia começar da seguinte maneira: “Cam, filho de Noé, gerou um filho, Ninrode que significa em hebraico, "ele se rebelou" ou "o rebelde".Depois de Ninrode morrer, Semiramis , sua mãe, criou o mito da sua sobrevivência pós-morte, ao afirmar que ele era agora um espírito, alegando que um pinheiro cresceu na madrugada de um pedaço de árvore morta. Todos os anos, por ocasião do seu aniversário, Ninrode (em espírito) visitava o pinheiro e deixava nele oferendas na data que coincide com o nosso 25 de Dezembro. Por outro lado, no Egito acreditava-se que Horus, filho de Isis nasceu no dia 25 de Dezembro do nosso calendário. Só por aí, já deu para entender o que nos aguarda? Nosso Natal, como comemoração tem muito mais origens obscuras do que imaginamos e mais que isso, no caldeirão de nossa formação acaba se transformando em um verdadeiro Natal à brasileira , no qual é até divertido identificar as reais origens dos costumes.

Na verdade, podemos afirmar que a festa do Natal é muito mais antiga do que a cristandade e remonta ao paganismo contendo em si uma simbologia toda alheia ao dogma cristão a começar pela data, uma vez que Jesus, historicamente, não deve ter nascido realmente aos 25 dias de dezembro. Foi no Concílio de Nicéia, cerca de 400 anos após o nascimento e morte de Jesus, que a Igreja Católica resolveu convencionar o nascimento de Jesus nesta data. Analisando os Evangelhos, de S.Marcos e S. Mateus que relatam a história do nascimento de Jesus, ao contrário do que julgávamos, Ele não teria nascido no inverno, mas sim na Primavera ou no Verão, pois os pastores não guardariam os rebanhos nos montes com o rigor daquela estação.

A escolha de 25 de Dezembro não foi arbitrária. Colocando o nascimento de Cristo na data das festividades pagãs do solstício do Inverno, a Igreja Cristã tinha a esperança de as absorver e o que aconteceu na verdade foi a absorção de muitas de suas ritualísticas e simbologias.
Como sabemos, os adoradores do sol remontam às épocas mais antigas da História da humanidade (os egípcios ao deus Ra, os assírios ao deus Shamash e ainda os celtas e gauleses ao deus-sol).Também os persas tinham deuses inspirados no sol como o deus Agni. Estudiosos contam que no dia 24 de Dezembro queimavam o seu deus manufaturado de um tronco de árvore; isso depois de já terem feito outro que repunham no lugar do anterior no dia que corresponde ao nosso 25 de Dezembro. As civilizações gregas e romanas tinham em suas tradições as celebrações saturnais, que consistiam em festejos dedicados ao deus-sol, denominados Nataalis Solis Invicti, ou o nascimento do sol invencível.
Os estudiosos bíblicos consideram que Jesus, o verdadeiro Messias, não nasceu em 25 de dezembro. Os apóstolos e a Igreja primitiva jamais celebraram o nascimento de Cristo nesta data e em nenhuma outra e que não existe na Bíblia ordem ou instrução alguma para fazê-lo. Porém, existe sim, a ordem de observarmos a Sua morte ( I Co 11:24-26 ; Jo 13:14-17).
Os esotéricos e místicos lembram que além dos principais costumes natalinos de cada povo, tem-se adotado outros que são de origem pagã. Um exemplo é a coroa verde adornada com fitas e bolas coloridas que enfeitam as portas de tantos lares que é de origem pagã e remonta aos costumes pagãos de se adornar edifícios e lugares de adoração para a festividade que se celebrava ao mesmo tempo do Natal.

Antes do século IV, período em que os cristãos não eram livres para cultuar abertamente, recorriam a pequenas reuniões nas casas ou catacumbas. O Natal e a Epifania eram celebrados conjuntamente no dia 6 de janeiro porém, depois da conversão do imperador Constantino e de seu edito de Milão no ano 313, os cristãos passaram a celebrar seus cultos abertamente e a comemorar o Natal como festa separada.
Foi o papa Júlio I (337-352) quem escolheu o dia 25 de dezembro não só porque algumas antigas tradições apontavam essa data como a do nascimento de Cristo. Na Palestina e no Egito a festa demorou mais tempo a ganhar raízes. São do ano de 432 os primeiros testemunhos da festa de Natal em Alexandria e é só pelos anos 634 ou 638 é que a festa de 25 de Dezembro tomou forma definitiva em Jerusalém. Consta que em Constantinopla o Natal foi instituído por volta do ano de 386. Foi João Crisóstomo, ainda diácono, quem deu a grande novidade ao povo anunciando que naquele ano se começaria a celebrar em 25 de Dezembro a festa do nascimento de Cristo. Mais tarde, no ano 425, a festa passou a fazer parte dos dias em que eram proibidos os jogos. O papa Leão I, o Grande; (440 a 461), no seu sermão 22 sobre a "Natividade do Senhor" repreendia os cristãos a "não confundirem Cristo com os sóis naturais".
Consta na Enciclopédia Americana que "uma festa foi estabelecida em memória do nascimento de Cristo no século IV. No século V a igreja ocidental deu ordem para que fosse celebrada, para sempre, no dia da antiga festividade romana em honra do nascimento do sol, por não se conhecer ao certo o dia exato do nascimento de Cristo."
Foi no ano 527 o imperador Justiniano mudou a sede do império para Roma e com esta mudança muitas coisas modificaram-se na Igreja Católica e principalmente o que se refere a primazia dada ao bispado, causa do grande cisma. Ele decretou então que se celebrasse a festa do Natal a 25 de Dezembro.

terça-feira, 20 de novembro de 2007



Retornando a Marc Ferro, o motor de sua série de palestras que culminaram no livro foi um debate televisivo sobre Joana D' Arc. Para enfrentar tal façanha leu todos os bons livros sobre assunto incluindo a obra de dois historiadores ingleses, Edward Lucie Smith e Robert Greenblatt que abordavam uma questão que jamais havia pensado. "Apoiados no depoimento de Jean d'Aulun, um dos companheiros de Joana d'Arc, lembravam que 'ela não tinha os contratempos habituais das jovens mulheres' nem atração pelos rapazes. Fico sabendo,então, por esses autores anglo-saxões, que algumas moças podem vir a ter atordoamentos, 'visões' e não sei mais o quê."
Chegando ao debate Ferro encontrou além do arcebispo de Rouen, conhecidos aduladores de Joana d'Arc, e em sua hora de falar ... "senti de repente minha boca congelar, meus lábios tremerem e respondi:- na Rússia, Joana d'Arc era considerada uma heroína nacional, da estirpe de Alexandre Nevski...- e não pude emitir mais nenhum som. Naquele dia, compreendi o que era um tabu: aquilo sobre o que se silencia, por medo, por pudor, confirma Alain Rey. Diferencia-se, com certeza, da proibição aplicada mais precisamente ao que não está autorizado, e distingue-se da auto-censura ou da censura, constantemente invocadas como explicação de todos os silêncios da História".
È óbvio que a muitos é irrelevante que na verdade Moisés (no saber de Gerald Messadié), um dos gigantes da história da humanidade, na verdade fundador de uma religião e líder de um povo, era na verdade egípcio. Explicamos, para os egípcios os filhos pertenciam às suas mães, era delas a ascendência, e muito embora filho de pai hebreu, o líder dos hebreus era filho de Nezmet-Tefnut, egípcia e irmã do faraó Ramsés II. Derrocada a história de cestinhos de junco, foi só aos 15 anos de idade que teve um contato mais estreito com os hebreus.
Grandes heróis não deixam de ser heróis por opções sexuais ou talvez por uma ou outra excentridade. Alexandre, O Grande é um exemplo. Seu gênio militar se impôs sobre o império persa e foi a base da Civilização Helenica. Na arte da guerra recebeu lições do pai, militar experiente que lhe transmitiu conhecimentos de estratégia e lhe deu os dotes de comando. Ainda jovem teve oportunidade de demonstrar seu valor quando, aos 18 anos, no comando de um esquadrão de cavalaria, venceu o batalhão sagrado de Tebas na Batalha de Queronéia em 338 a.C. Depois do assassinato de seu pai em 336 a.C. subiu ao trono da Macedônia e iniciou a expansão territorial do reino. Para a empreitada contou com poderoso e organizado exército, dividido em infantaria, cuja principal arma era a zarissa (lança de grande comprimento) e cavalaria, que constituía a base do ataque. Tão poderoso homem fazia-se acompanhar de jovens imberbes que o serviriam no que a história podia convencionar de "o descanso do guerreiro".
Outro herói foi Ricardo I ,o Ricardo Coração de Leão. Ricardo foi coroado em 3 de setembro de 1189, fato prejudicado por um tumulto e perseguição à comunidade judaica, na Inglaterra, como parte da histeria causada pelas preparações para a Cruzada. O fato é que Ricardo era possuidor de um caráter intrigante, que provocou muito debate entre os historiadores. Na realidade seu interesse na Inglaterra era a possibilidade de ser uma boa fonte de renda. "Ele nunca falou uma palavra de inglês, embora tenha ali nascido, mas era por natureza ligado à França. Mesmo assim, isso não impediu de ser visto como uma das figuras mais heróicas da Inglaterra." explica W.B.Bartlett em seu livro Historia Ilustrada das Cruzadas (Ediouro).
Segundo Jean Plaidy em sua "Saga dos Plantagenetas" (Editora Record), Ricardo foi criado na França entre cavaleiros e trovadores, era heróico e suas campanhas na Sicília, a conquista de Chipre e as vitória na Terra Santa lhe deram a fama. "Porém Ricardo possuía também uma estranha natureza, revelada no conflituoso relacionamento com o rei Felipe da França, no elo místico com o sultão Saladino e na dedicação do menestrel Blondel, que viajou pela Europa até descobrir seu adorado amo na fortaleza de Dürenstein". O leão enfim, tinha seu lado doce que faria parte dessa era de esplendor e de crueldade, mais que isso, foi o caráter aventureiro de Ricardo que levou ao enfraquecimento da instituição monárquica na Inglaterra, abrindo caminho para a crise que seria desencadeada no reinado seguinte.
A realeza sempre nos deu boas histórias e muitas controvérsias, uma das grande polêmicas do século passado foi a morte do Czar Nicolau II e de toda a sua família. Segundo Marc Ferro o assassinato de Nicolau II e da família imperial pelos bolcheviques,em Ekaterimburg, em julho de 1918,é um acontecimento bem identificado, tão conhecido quanto a execução de Luís XVI. No entanto, muitas informações e igualmente muitos indícios levantam um dúvida quanto à realidade do relato sobre esse assassinato - não fosse a sobrevivência da mais jovem das filhas da família imperial, Anastácia, que disseram ser uma impostora". Bela, talvez nem tanto como Ingrid Bergman, Anastásia na verdade foi verdadeiramente reconhecida por Botkine Filho, mas devemos perguntar, quem gostaria de acreditar nele? Ele que havia sido seu colega de brincadeiras em Petrogrado e depois na Sibéria, tendo retornado dos Estados Unidos, fica sabendo que a família, depois de ter reconhecido Anastásia, renega-a para assegurar a passagem da herança de Romanov ao ramo de Cirilo. O dinheiro também é motor da história. Mas tudo poderia ter um ponto final por aqui não fosse a Igreja Católica Ortodoxa Russa ter decidido canonizar Nicolau II, sua esposa e os cinco filhos do casal. A canonização do último Czar da Russia, Nicolau II, juntamente com a esposa Alexandra e os cinco filhos do casal: Aleksey, Olga, Tatiana, Maria e Anastásia. Foi decidida na reunião do Conselho Eclesiástico na presença do Patriarca Alexis na qual os arcebispos decidiram também canonizar outros 853 mártires do século XX, muitos dos quais eram sacerdotes e monges mortos pelos comunistas.

"Talvez ninguém aceite outra versão dos fatos
Que a fantasia é a mordaça da realidade
Os ídolos de barro para os insensatos
E, aos verdadeiros homens, homens de verdade!"

E AGORA A REPÚBLICA


Longe de querermos ter esgotado o assunto República chegamos até a Proclamação em si. Mas a República também tem os seus tabus. Na tentativa de derroca-los algumas obras se apresentam como fundamentais como a que vem agora a público pela Editora Civilização Brasileira . Em "O Brasil Republicano", série coordenada por Jorge Ferreira e Lucilia de Almeida Neves Delgado é dada continuidade ao projeto História Geral da Civilização Brasileira, último grande trabalho organizado por Sérgio Buarque de Hollanda, entre 1960 e 1972. São abordagens plurais e críticas contando com historiadores das principais universidades e instituições brasileiras - convidados, levando-se em conta os critérios de pluralidade, especialidade e reconhecimento acadêmico. São quatro volumes de "O Brasil Republicano" : O tempo do liberalismo excludente, O tempo do nacional-estatismo, O tempo da experiência democrática e O tempo da ditadura.


No primeiro volume de O Brasil Republicano, O tempo do liberalismo excludente, tem início com o conturbado período que se segue à proclamação da República e finaliza com a Revolução de 1930. É quando surgem os padrões culturais, sobretudo a febre modernizante que acompanharam a proclamação da República. Dizendo-se liberal, o novo regime era ao mesmo tempo, excludente. Foi um período onde eclodiram rebeliões lideradas por elites políticas insatisfeitas, tanto civis como militares. O segundo livro fala sobre o tempo do nacional-estatismo, volta-se exclusivamente para a década de 1930 e o apogeu do Estado Novo. O ano de 1930 terminou com uma revolução e com um governo provisório. A partir daí, vários projetos políticos disputaram o poder no país. Os mais atuantes e influentes na época tentaram se impor recorrendo às armas, mas foram derrotados em 1932, 1935 e 1938. Ao final, os insatisfeitos com Getúlio Vargas foram silenciados: o governo constitucional transformou-se na ditadura do Estado Novo. No entanto, o regime autoritário incentivou a industrialização do país, patrocinou uma política cultural que encontrou receptividade entre artistas e intelectuais e elevou os trabalhadores à condição de personagens centrais do regime. Em O tempo da experiência democrática, temos o resgate da prática da democracia no Brasil que se abre com o movimento queremista até o seu colapso com o golpe civil-militar de 1964. O ano de 1945 começou com um movimento inverso: a ditadura do Estado Novo entrava em crise, mas o prestígio do ditador crescia entre os trabalhadores. Com a consolidação da democracia, diversos personagens passaram a se manifestar politicamente: trabalhadores, camponeses, militares, empresários, estudantes, artistas, intelectuais, entre outros. Vivendo uma experiência democrática, a população brasileira, por meio do voto, demonstrava preferências pelo projeto nacional-estatista defendido por trabalhistas e comunistas, mas não tanto pelo programa dos liberais udenistas. Ao final, a direita radicalizou, negando-se a aceitar qualquer tipo de reforma, defendendo seus privilégios a todo custo. Mas a esquerda igualmente polarizou, querendo as reformas a qualquer preço. Por fim O tempo da ditadura, a era dos generais que vai até a eclosão de movimentos sociais no final do século XX. Os militares, ao lado de seus aliados civis, tomaram o poder em março de 1964 e implantaram uma ditadura que durou muito além do previsto até mesmo por eles. Para isso, o regime recorreu à violência, à censura e à espionagem. Muitos melhoraram de vida com o "milagre" econômico e tantos outros se tornaram ainda mais pobres do que eram. Políticos, religiosos, estudantes, artistas e intelectuais se opuseram ao governo dos generais e pequenos grupos de jovens partiram para a luta armada com desejo implantar o socialismo no país. O tempo da guerra suja é melhor entendido em nossa próximo tabu, porém maior tabu hoje em dia é apontar novos "democratas" que estiveram o tempo todo do lado do poder militar.
Outro tabu, e dos mais dolorosos e temidos, era o General Golberi do Couto e Silva. Escrevemos era porque, a partir de exaustiva pesquisa documental, Elio Gaspari conta como dois generais aos poucos desmontaram a ditadura que haviam ajudado a construir: Ernesto Geisel, o Sacerdote, e Golbery do Couto e Silva, o Feiticeiro, atuaram juntos no comando do regime militar brasileiro e o conduziram à derrocada. O relato que inaugura a trilogia O Sacerdote e o Feiticeiro (Cia das Letras) vai de junho de 1971, quando um bilhete anunciava que o novo presidente seria "o Alemão", à avassaladora vitória da oposição nas eleições parlamentares de 1974.


Sobre o livro Marcos Sá Corrêa escreve - "A mistura de pesquisa exaustiva com inconfidências inimagináveis dá às páginas d'A ditadura derrotada o atestado definitivo de que a história supera, sim, a ficção. Em vez de personagens reais dizendo coisas imaginárias, elas têm personagens reais dizendo coisas inimagináveis. Geisel se deixou gravar por um auxiliar de confiança num governo que censurou o presente e o passado mas deixou ao futuro o legado de suas próprias entranhas abertas à exposição pública."


E outras histórias vão saindo das sombras. A de Chico Mendes é outra delas. O jornalista Zuenir Ventura escreveu "Chico Mendes - Crime e Castigo" (Cia das Letras). Quinto volume da série Jornalismo Investigativo teve segundo o autor a preocupação de não tratar Chico como um mito. Em entrevista por ocasião do lançamento do livro, chegou a declarar que ele foi um mártir da causa ambiental mas "não gosto de achar que temos que mitifica-lo. No livro, revelo que ele foi bígamo.Não se tem de esconder isso para fazer dele um personagem religioso.(...)Tive a preocupação de trata-lo não como mito, mas como um líder como poucos que o Brasil produziu."

MONARCAS


Mais tarde temos as histórias de nossos monarcas. É sabido que Carlota Joaquina não era nenhuma flor de pessoa e a esta, poucas vezes os historiadores deram desconto. Personalidade forte, temperamento difícil, teve muitos inimigos e outros tantos bajuladores era considerada um estorvo na vida de D. João VI. Para Oliveira Lima sua alma "poderia chamar-se masculina, não tanto pelo desejo imoderado de poder e pelo cinismo, quanto pela sua pertinácia em alcançar seus fins e pela dureza..." Frente a tal quadro Francisca L. Nogueira de Azevedo em seu livro "Carlota Joaquina, na corte do Brasil" (Civilização Brasileira) "estilhaçar o bloco monolítico que forma essa imagem pública", imagem essa que segundo o historiador português Luís Torgal "...as análises disponíveis sobre esta personagem da história portuguesa apenas transmitem uma lenda negra e anedótica". Estaria na hora de rever esse capítulo histórico.
Quanto a Dom Pedro I, parecemos ser um pouco mais condescendentes, dando-nos possibilidades de escrevermos livros intitulados, por exemplo, "As maluquices do Imperador", de Paulo Setúbal. Vez por outra surgem alterações como quando do lançamento de "Chalaça" de José Roberto Torero. Duílio Crispim Farina, mesmo respeitoso produziu um outro livro diremos, incômodo. Mesmo respeitoso e ganhador do prêmio José Almeida Camargo (1975) da Associação Paulista de Medicina, o livro tratava de um tema dito íntimo, e discorria o livro sobre o "Tempo de Vida, Doença e Morte na Casa de Bragança (Ramo do Brasil)", enfim sobre os achaques, a epilepsia do primeiro imperador e as convulsões do segundo. Sequer a citação de Joaquim Nabuco na página de rosto ajudava dissimular a intromissão - "a missão da monarquia no Brasil não tem exemplo na história das dinastias. O primeiro Imperador criou a nacionalidade, o segundo constituiu a nação e sua filha, numa curta regência, aproveitando o que ela mesma havia iniciado, realizou a abolição, fundando a igualdade social.
Mas Pedro II foi sua própria vitima na história. Provocava escândalos que geravam artigos, peças, romances e muitas charges. A sua má fama contrapunha-se à sua ousadia em busca das modernidades e da cultura. Sergio Gomes de Paula escreve que os enredos de suas histórias faziam as delícias dos oposicionistas e trouxeram grande mal-estar aos monarquistas. "até aí, nada de novo; mas, para agravar, falaram-se coisas mais do que malévolas sobre a vida privada de D. Pedro II, contaram-se casos que faziam dele um furioso da libido". As garotas de pouca idade faziam pano de fundo e a nitroglicerina para seus opositores. A questão do simulado roubo das jóias da coroa foi explorado por muitos como Raul Pompéia, Artur Azevedo e José do Patrocínio. Raul Pompéia escreveu "As Jóias da Coroa" e, recentemente, charges, desenhos satíricos de Agostini, Belmiro de Almeida e Asmodeu foram reunidos aos textos dos três no livro "Um Monarca da Fuzarca" (Relume-Dumará).
Pelo sim, pelo não D. Pedro II, em 16 de novembro de 1889, quando soube que o marechal Deodoro da Fonseca era o chefe do novo regime exclamou - "estão todos malucos!".

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

VIRGENS E OUTROS HERÓIS


OU ESTE ?

A colonização do Brasil tinha os seus desenredos, degredados, cristãos novos e prostitutas, vinham em levas para compor o que se convencionou chamar de ocupação do litoral. É interessante acompanhar a saga das "alminhas órfãs" trazidas ao Brasil. Na verdade, levas de jovens prostitutas foram entregues a própria sorte no Brasil. Essa história é magistralmente contada em "Desmundo" (Cia das Letras) de autoria de Ana Miranda. Através da narrativa de Oribela, o leitor ingressa em formas de ação e de pensamento da época, deparando-se com aspectos tais como existência feminina, religiosidade, nova terra, amor e sexualidade através do pensamento da personagem que é pontilhado de crenças, medos e questionamentos diante do mundo/desmundo que a ela se apresenta.

Outros de nossos heróis foram de tal forma cristianizados que seu aspecto, nas mãos de nossos ilustradores e pintores foi se alterando. Em Tiradentes temos o melhor exemplo. A começar que o historiador inglês Kenneth Maxwell, em "A devassa da devassa" (Terra e Paz) diz que "a conspiração dos mineiros era, basicamente, um movimento de oligarquias, no interesse da oligarquia, sendo o nome do povo invocado apenas como justificativa", e que objetivava, não a independência do Brasil, mas a de Minas Gerais." Os estudos apresentam um Tiradentes sem barba e nunca o líder que foi apresentado e segundo o autor Joaquim José da Silva Xavier seria apenas e tão somente um possível "bode expiatório" da conspiração. Botando mais "lenha na fogueira" encontramos um artigo do historiador Marcos Antonio Correa (publicado no Jornal Folha de São Paulo) onde defende que Tiradentes não morreu enforcado em 21 de abril de 1792, como conta a Historia Oficial.

Fundamenta sua suspeita com uma lista de presença da Assembléia Nacional francesa em 1793, onde consta a assinatura de um tal de Joaquim José da Silva Xavier. Um estudo grafotécnico permitiu-lhe concluir que se tratava da assinatura de Tiradentes. Ainda segundo ele um ladrão morreu no lugar de Tiradentes, em troca de ajuda financeira à sua família, oferecida pela maçonaria. E mais, que testemunhas da morte de Tiradentes surpreenderam-se porque o executado aparentava ter menos de 45 anos. Segundo o historiador Tiradentes teria sido salvo pelo poeta Cruz e Souza, maçom, amigo dos inconfidentes e um dos juízes da Devassa. Salvo da forca foi embarcado incógnito para Lisboa em agosto de 1792.

Mas ainda vale a lavra da SENTENÇA DE CONDENAÇÃO de 18 de abril de 1792.- "...Mostra-se que entre os chefes, e cabeças da Conjuração o primeiro que suscitou as idéias de república foi o Réu Joaquim José da Silva Xavier por alcunha o Tiradentes, Alferes que foi da Cavallaria paga da Capitania de Minas, o qual a muito tempo, que tinha concebido o abominável intento de conduzir os povos daquella Capitania a uma rebelião; (...)Portanto condenam ao Réu Joaquim José da Silva Xavier por alcunha o Tiradentes Alferes que foi da tropa paga da Capitania de Minas a que com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas publicas ao lugar da forca e nella morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Villa Rica aonde em lugar mais publico della será pregada, em um poste alto até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes pelo caminho de Minas no sitio da Varginha e das Sebolas aonde o Réu teve as suas infames práticas e os mais nos sitios (sic) de maiores povoações até que o tempo também os consuma; declaram o Réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens applicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Villa Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique..."

Em tempo, na mesma sentença lê-se que -"... Mostra-se mais que este abominável Réu ideo a forma da bandeira que ia ter a república que devia constar de três triângulos com allusão as três pessoas da Santíssima Trindade o que confessa a folhas 12 verso do appenso n. 1 ainda que contra este voto prevaleceu o do Réu Alvarenga que se lembrou de outra mais allusiva a liberdade que foi geralmente approvada pelos conjurados;" Na primeira edição de sua revista "Nossa História" da Biblioteca Nacional encontramos na sessão Almanaque a nota "Erro de Tradução" - "...na verdade a tradução do lema libertas quae sera tamem, famoso por figurar na bandeira dos inconfidentes,e hoje na bandeira Minas Gerais, está errada. A expressão foi tirada de um poema de Virgílio, que diz: ' a liberdade, ainda que tarde,apoderou-se, porém, do inerte'. Fora desse contexto, não faz muito sentido. "Liberdade ainda que tardia", em latim, seria apenas libertas quae sera,enquanto que libertas quae sera tamen, numa tradução literal, significa 'a liberdade que tardia, porém'".

UM TAL DE JOÃO FERNANDES VIEIRA



João Fernandes Vieira, personagem controversa por suas posturas políticas, , merece mais um verso de nossa canção - "Quem foi o herói que era fidalgo e nobre?/ foi o varão de uma rameira pobre". Escrevem os livros que "João Fernandes Vieira, herói brasileiro e um dos chefes da Insurreição Pernambucana, que nasceu em Funchal, ilha da Madeira no ano de 1613 e falecido em Recife no ano de 1681, era filho do fidalgo Francisco d'Ornelas Muniz e de uma mulher de condição humilde". Essa mulher não era outra que "Maria Bem Feitinha" sabidamente ex-cortesã na Madeira. Se por um lado era essa a sua origem, por outro era o "herói" e não apenas um comerciante português, que terminaria como líder da luta contra os holandeses (1645) em Pernambuco. Voluntário nos primeiros dias da invasão holandesa participou da defesa do forte de São Jorge, porém com o estabelecimento de um governo holandês na região (1635), entrou em "entendimentos" com os novos governantes e tornou-se um dos homens mais ricos e poderosos da capitania. Mais tarde juntando-se a insatisfação popular contra os invasores, comandou a primeira fase da insurreição pernambucana (1645-1648), revelando-se chefe militar dos mais valorosos, primeiro em Tabocas e depois, reunido a Vidal de Negreiros, na Casa Forte. Destacou-se nas duas batalhas de Guararapes (1648/1649) e terminada a guerra, foi nomeado governador da Paraíba (1655-1657), e capitão-general de Angola (1658-1661). Nomeado responsável pelas fortificações do Nordeste (1672), não mais saiu de Olinda.

CONHECENDO OS HERÓIS DE PERTO



Além dos tabus relacionados é interessante darmos um mergulho nessa nossa história, a do Brasil. Vitimada por falta de verbas para pesquisas, arquivos devastados, e depois pasteurizada em dois períodos recentes (primeiramente, por Getulio Vargas, seu DIP e a reforma curricular e depois com a Ditadura Militar, criadora da cadeira de Educação, Moral e Cívica - mais tarde emblematicamente transformada em estudos da Organização Social e Política Brasileira e que ganhava estofo nas faculdades como Estudo dos Problemas Brasileiros) com métodos de mitificação e nacionalismo verdadeiramente deploráveis. Se por um lado mitificamos posturas heróicas que se transformam em ícones para idólatras acabamos por evitar tocar em tabus da história, e como Maria Luiza Tucci Carneiro escreve "deixar cair no esquecimento ou postergar para o futuro são também práticas conhecidas dos brasileiros anestesiados pelas versões oficiais da história". Felizmente isso está mudando e as prateleiras das livrarias se enchem de livros que nos ajudam a repensar nosso passado.



Nossa história começa confusa com a presença de Vicente Pinzón. A cidade de Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, e a cidade de Fortaleza, no Ceará, disputam o "privilégio" de ter sido o primeiro lugar onde desembarcou um europeu, e portanto, um lugar de descobrimento. Seriam ali os lugares onde o Brasil teria sido descoberto. Mais de dois meses antes de Pedro Álvares Cabral, o navegador espanhol Vicente Pinzón teria aportado suas caravelas em uma dessas cidades. E para complicar ainda um pouco mais no livro A construção do Brasil (1998, Edições Cosmos), o historiador português Jorge Couto relata que o navegador português Duarte Pacheco aqui esteve entre novembro e dezembro de 1498, portanto, mais de dois anos antes de Cabral, mais de um ano antes de Vicente Pinzón, fortalecendo assim a idéia, de que a viagem de Cabral foi intencional e a descoberta não um acaso, e sim uma premeditação. Outra confusão que surgiu na época das comemorações dos 500 anos foi a da primeira cidade brasileira. Neste suplemento publicamos a história da cidade de São Vicente que "da capitania hereditária de São Vicente, hoje, no estado de São Paulo, é uma das cidades que reivindicam para si o título de primeira cidade do Brasil, contrariando os humores de Porto Seguro, Bahia, por exemplo. Picuinhas históricas à parte, esta cidade que tem como dístico o de Céllula Mater da Nacionalidade e, segundo o historiador Francisco Martins dos Santos, já tinha seu nome assinalado em mapas como ilha, porto e povoado desde 1502, onde Eugênio de Castro ao referir-se à expedição de Martim Afonso dizia que "o litoral atlântico que se desenvolve no quadrante sudoeste, entre as ilhas de Santo Amaro e do Bom Abrigo - ou o "Portus de São Vicenzo" e o "Rio de Cananor" é o mais remoto cenário geográfico da civilização européia na terra paulista " e constando ainda nas cartas de 1503, 1506 e 1508 ."

Mas é lá que nos deparamos com as dificuldades dos historiadores, pois a "maioria dos documentos que existem sobre o passado da vila de São Vicente e depois cidade de São Vicente datam de um período após 1796. Após a fundação da vila, criou-se um arquivo, que durou pouco, pois em 1536 um pirata chamado Mosquera atacou e saqueou a vila e assim levou o Livro do Tombo, onde todos os acontecimentos do povoado eram registrados. Em 1542, pasmem, um maremoto, destruiu por completo os cartórios paroquial e civil. O marco e o pelourinho, foram tragados pelas águas. Existem registro dos custos de suas recuperações e construções. Recomeçou-se a organizar o arquivo resgatando o que havia escapado ou ficado na memória depois dos dois desastres. Mas isso também durou pouco e, se não falha a memória de uns e outros, foi em 1591 (ou seria 1593) , o corsário Cavendish saqueou São Vicente e é claro ...queimou a documentação existente.
A população já saturada de tanta chateação resolveu então fortificar a cidade. Tudo ia bem até 1667, quando o juiz ordinário da vila, Manoel Vieira Colaça, enlouquecido por conta das toleimas da doidivanas sua amada, segundo uns ou com medo de uma CPI segundo os modernos, queimou todos os livros restaurados, incluindo aí todo e qualquer papel antigo em que pode colocar as mãos. Só escaparam os que estavam no prédio da Câmara. Um secretário da Câmara também deu sua contribuição e sem que saibamos o motivo, tocou fogo em tudo (segundo cronistas o papelório ardeu por três dias).
Mas, o brasileiro é antes de tudo um teimoso e toca a se recuperar o que dava para recuperar e "pimba", surge um trêfego ascendente do talvez real Pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião. Um Secretário da Casa do qual infelizmente não se sabe o nome e que era fogueteiro de profissão, na falta de algo melhor a fazer utilizou documentos para fabricar bombas e foguetes. A história então foi literalmente pelos ares..."

OUTRA VERSÃO DOS FATOS?



Vamos saber se contaram nossa história certo

Vamos rever o que existe do nosso passado

Devemos conhecer nossos heróis de perto

Tentando consertar o que aprendeu-se errado

Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro in Guararapes



Ensaio de E.Cruz e M. Ratis

Nas edições do Suplemento Cultural, procuramos além de resenhar, comentar, aprofundar discussões sobre cultura e arte, desnudarmos esse ou outro fato ou ainda um personagem que ficou esquecido ou teve sua história contada de uma outra forma. Nossa obrigação como jornalistas sempre foi mostrar os dois lados da questão, apurar os fatos, checar as fontes. È interessante aplicar essas regras à história, e por isso mesmo, temos mergulhado em nosso passado (próximo ou distantes) com a avidez de quem procura, digamos, "um furo de reportagem". Se no jornalismo escrevemos a história futura, nos sentimos também à vontade para "escarafunchar" nosso passado. Muitos historiadores mais sisudos torcem o nariz para tais incursões que resultam em ensaios, que não pretendem ser definitivos, mas sim pontos de discussão para novas pesquisas e outras, como dizem, versões dos fatos. Como na canção de Caymmi e Pinheiro, "o rei, o herói, o santo, o assassino e o mártir/foram também como nós em decadência ou glória..." e por isso mesmo não são intocáveis e não podem se transformar em tabu.
Nos deparamos com o livro "Os Tabus da História", escrito por Marc Ferro. O autor é considerado um dos grandes historiadores da atualidade, nascido em 1924, é diretor de estudos na École des Hautes Études em Sciences Sociales (EHESS), especialista em História da Rússia e pioneiro nas relações do cinema com a História. Também é co-diretor da revista "Les Annales" e foi animador do programa "História Paralela" durante 12 anos. Publicou mais de vinte obras traduzidas em dezenas de idiomas, entre elas "A História Vigiada", "Cinema e História", "História da Colonização - das Conquistas à Independência", "Nicolau II: o Último Czar", "O Filme: uma Contra-análise da Sociedade?" e "O Ocidente diante da Revolução Russa". A mais recente foi "Histoire de France".
No livro Marc Ferro convida o leitor a revirar esses tabus. Provocativamente nos incita a desvendar o que existe por trás dos fatos. Por isso mesmo é um livro diferente de outros historiadores. Editado a partir de transcrições de gravações de conferências, flui sem academicismo. O livro que chegou ao Brasil em momento tão oportuno nos faz relembrar que, assim como em todas as partes do mundo, no nosso país ainda é tabu falar de tabus. "Isto porque tal postura perturba a ordem das coisas, causando mal-estar".
Segundo Ferro, "distingue-se da auto-censura ou da censura, constantemente invocadas como explicação de todos os silêncios da História". Explica ainda que as instituições que mais escondem os segredos de seu poder, que são a Igreja, a República e o Partido."Elas também escondem algumas das marcas de suas origens, tornando-se as principais fontes de segredos e tabus.
No prefácio da edição brasileira Maria Luiza Tucci Carneiro (Universidade de São Paulo) explica que "'Tabu' tem a ver com algo perigoso de ser dito, interdito; algo que estorva, vedando o acesso a certos bens, espaços e informações. Enfim, a sustentação dos tabus expressa algo que foi 'mal-apurado'. Tanto assim que em algumas regiões brasileiras, a expressão 'tabu' é empregada para qualificar o açúcar que, por se haver queimado ao apurar ou não ser bem limpo, não coalha bem na forma, nem entesta para se lhe pôr barro e purgá-lo." E vamos nós derrocando os tabus de lá e cá , como nos versos na mesma canção "Os ídolos de barro para os insensatos/ e, aos verdadeiros homens, homens de verdade".
É ainda interessante observar o que escreve Helenice Rodrigues da Silva (Universidade Federal do Paraná) em seu ensaio "Rememoração"/comemoração: as utilizações sociais da memória. Explica que 'objeto de manipulações freqüentes (de ordem política e ideológica), a memória (individual e coletiva) passa, assim, a integrar o "território do historiador'. Inspirando-se em análises psicanalíticas (sobre o "recalque", o "luto") e filosóficas (sobre o tempo, o silêncio, etc.), o historiador do presente desempenha, nesse trabalho de resgate da memória, uma função de mediador, à imagem de um analista. Procurando adequar os relatos de memórias individuais à veracidade histórica, ele elabora uma reflexão sobre a própria temporalidade. Em outras palavras, cabe-lhe a tarefa da apreensão da relação do presente da memória (de um acontecimento) e do passado histórico (desse acontecimento), em função da concepção de um futuro desse passado. "O trabalho da história se entende como uma projeção, do nível da economia das pulsões ao nível do trabalho intelectual dessa dupla tarefa que consiste na lembrança e no esquecimento", afirma Paul Ricoeur."

VAMOS SABER SE CONTARAM NOSSA HISTÓRIA CERTO



Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Neste 15 de Novembro o Suplemento Cultural publica um preview de sua segunda edição e alguns ensaios adicionais que têm como tema uma reflexão sobre a forma com que contaram a nossa história. Nesta epígrafe uma lembrança do Hino adotado pela esquerda brasileira durante os anos de chumbo. Talvez fosse o momento de refletir um pouco em nome do que lutamos tanto e o pouco que conseguimos. Sem "ismos" mas com uma certa irreverência, boa leitura!
Eduardo Cruz