quinta-feira, 15 de novembro de 2007

OUTRA VERSÃO DOS FATOS?



Vamos saber se contaram nossa história certo

Vamos rever o que existe do nosso passado

Devemos conhecer nossos heróis de perto

Tentando consertar o que aprendeu-se errado

Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro in Guararapes



Ensaio de E.Cruz e M. Ratis

Nas edições do Suplemento Cultural, procuramos além de resenhar, comentar, aprofundar discussões sobre cultura e arte, desnudarmos esse ou outro fato ou ainda um personagem que ficou esquecido ou teve sua história contada de uma outra forma. Nossa obrigação como jornalistas sempre foi mostrar os dois lados da questão, apurar os fatos, checar as fontes. È interessante aplicar essas regras à história, e por isso mesmo, temos mergulhado em nosso passado (próximo ou distantes) com a avidez de quem procura, digamos, "um furo de reportagem". Se no jornalismo escrevemos a história futura, nos sentimos também à vontade para "escarafunchar" nosso passado. Muitos historiadores mais sisudos torcem o nariz para tais incursões que resultam em ensaios, que não pretendem ser definitivos, mas sim pontos de discussão para novas pesquisas e outras, como dizem, versões dos fatos. Como na canção de Caymmi e Pinheiro, "o rei, o herói, o santo, o assassino e o mártir/foram também como nós em decadência ou glória..." e por isso mesmo não são intocáveis e não podem se transformar em tabu.
Nos deparamos com o livro "Os Tabus da História", escrito por Marc Ferro. O autor é considerado um dos grandes historiadores da atualidade, nascido em 1924, é diretor de estudos na École des Hautes Études em Sciences Sociales (EHESS), especialista em História da Rússia e pioneiro nas relações do cinema com a História. Também é co-diretor da revista "Les Annales" e foi animador do programa "História Paralela" durante 12 anos. Publicou mais de vinte obras traduzidas em dezenas de idiomas, entre elas "A História Vigiada", "Cinema e História", "História da Colonização - das Conquistas à Independência", "Nicolau II: o Último Czar", "O Filme: uma Contra-análise da Sociedade?" e "O Ocidente diante da Revolução Russa". A mais recente foi "Histoire de France".
No livro Marc Ferro convida o leitor a revirar esses tabus. Provocativamente nos incita a desvendar o que existe por trás dos fatos. Por isso mesmo é um livro diferente de outros historiadores. Editado a partir de transcrições de gravações de conferências, flui sem academicismo. O livro que chegou ao Brasil em momento tão oportuno nos faz relembrar que, assim como em todas as partes do mundo, no nosso país ainda é tabu falar de tabus. "Isto porque tal postura perturba a ordem das coisas, causando mal-estar".
Segundo Ferro, "distingue-se da auto-censura ou da censura, constantemente invocadas como explicação de todos os silêncios da História". Explica ainda que as instituições que mais escondem os segredos de seu poder, que são a Igreja, a República e o Partido."Elas também escondem algumas das marcas de suas origens, tornando-se as principais fontes de segredos e tabus.
No prefácio da edição brasileira Maria Luiza Tucci Carneiro (Universidade de São Paulo) explica que "'Tabu' tem a ver com algo perigoso de ser dito, interdito; algo que estorva, vedando o acesso a certos bens, espaços e informações. Enfim, a sustentação dos tabus expressa algo que foi 'mal-apurado'. Tanto assim que em algumas regiões brasileiras, a expressão 'tabu' é empregada para qualificar o açúcar que, por se haver queimado ao apurar ou não ser bem limpo, não coalha bem na forma, nem entesta para se lhe pôr barro e purgá-lo." E vamos nós derrocando os tabus de lá e cá , como nos versos na mesma canção "Os ídolos de barro para os insensatos/ e, aos verdadeiros homens, homens de verdade".
É ainda interessante observar o que escreve Helenice Rodrigues da Silva (Universidade Federal do Paraná) em seu ensaio "Rememoração"/comemoração: as utilizações sociais da memória. Explica que 'objeto de manipulações freqüentes (de ordem política e ideológica), a memória (individual e coletiva) passa, assim, a integrar o "território do historiador'. Inspirando-se em análises psicanalíticas (sobre o "recalque", o "luto") e filosóficas (sobre o tempo, o silêncio, etc.), o historiador do presente desempenha, nesse trabalho de resgate da memória, uma função de mediador, à imagem de um analista. Procurando adequar os relatos de memórias individuais à veracidade histórica, ele elabora uma reflexão sobre a própria temporalidade. Em outras palavras, cabe-lhe a tarefa da apreensão da relação do presente da memória (de um acontecimento) e do passado histórico (desse acontecimento), em função da concepção de um futuro desse passado. "O trabalho da história se entende como uma projeção, do nível da economia das pulsões ao nível do trabalho intelectual dessa dupla tarefa que consiste na lembrança e no esquecimento", afirma Paul Ricoeur."

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